A DECISÃO DO DELEGADO LIBÓRIO

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 14 de Setembro, 2022 - Atualizado em 14 de Setembro, 2022

A DECISÃO DO DELEGADO LIBÓRIO

O Cajueiro já viu nascer muita gente, mas nenhum dos seus filhos se distinguiu tanto quanto Seu Libório, gente dos Laboroto que possuía ascendência europeia, lá para as bandas da Calábria. Dos Laboroto contam-se a valentia pelo trabalho, a honradez no compromisso assumido e o gosto pelas pilhérias. Honestidade era uma marca registrada naquela gente distinta, pela nobreza de seus gestos. Libório não nega as origens.

Embora de poucas letras, Libório era homem sério, trabalhador, cumpridor de seus deveres, dado à boa prosa com os amigos, e famoso pela bondade que espargia aos quatro ventos por ele conhecidos: batizava crianças à beira da morte, fazia caixão para os defuntos indigentes, organizava batalhões e tapagens de casa; rezava de mordida de cobra, sol e sereno e de atalhar fogo; dava esmolas aos mendigos e emprego aos pataqueiros que enchiam de vida a sua malhada. Sua casa era repleta de pedintes que encontravam nele um refrigério de uma mancheia de farinha ou de feijão, quando não umas raízes de aipim, inhame ou araruta.

Era homem adorado por quase todos do lugar. A molecada lhe estendia a mão, pedindo a bênção, conforme era costume ao se avistarem os mais velhos e respeitados, e na intenção de ganhar um tostão. Como tinha duas filhas moças, em idade de escola, arranjou com o chefe político, na quadra, a indicação de uma professora para dar aulas, em sua casa, a toda a meninada da redondeza. Por isso, seu terreiro era palco de uma grande festa, nas manhãs de verão, quando as crianças eram liberadas da lida da malhada. As famílias da redondeza enviavam seus filhos para a escola de Seu Libório.

No Cajueiro, somente uma família ficava de fora, porque votava na oposição. Libório se encarregava de avisar ao chefe político quem era contra e quem o apoiava. Por castigo, o tal vizinho de cerca não podia enviar os filhos para a escola de Libório. Seria desaforo, uma ofensa ao chefe político, receber gente do contra, para estudar com a professora enviada pelo chefe. Onde já se viu votar contra e ter benefício? Nunca! Que ficassem todos analfabetos... ou, então, que mudassem de lado.

Libório tinha tanto prestígio que, durante a campanha eleitoral, ele se encarregava de dar almoço aos eleitores de seu líder, num ajuntamento de grande porte, gente que nem formiga, num domingo inteiro. Boi, carneiro, porco, pato, peru e guiné eram sacrificados, às expensas daquele homem bondoso que de tudo fazia para ver seu chefe no comando. A cachaça grassava solta... a Reunião também servia para que o honrado senhor recolhesse o título eleitoral dos comensais, a fim de garantir voto na urna, no dia da eleição. Quando, por esquecimento, alguém não o trazia, Libório o aguardava, na fila da votação. Lá, pegava da cédula e, sem querer querendo, votava pelo desinfeliz uma, duas, três ou quatro vezes, a depender da conveniência. Após o “pagode” regado a cachaça de graça, eram servidos doces de leite, de batata, de goiaba e de caju. Na casa de Libório, em quadra de eleição, a comida era farta!

Foi num desses festins que ele recebeu o título de “Delegado do Mato”, uma espécie de comissário que resolvia as questiúnculas ali surgidas, como o roubo de galinhas, as intrigas entre vizinhos e alguma desfeita ou desdita que oferecesse maiores prejuízos. Alguém, para dar parte ao delegado, no Distrito Policial, teria de passar pela oitiva de Libório, receber as suas instruções e, sendo o caso, somente depois seguiria para cidade em companhia dele. Esse título era conferido pelo chefe político, que não necessariamente coincidia com o prefeito do município. Este também lhe era submisso.

O cargo de Delegado dos Matos não era para qualquer um. Somente quem apoiava o líder mor poderia almejar uma honraria tão importante. Era quase um título de nobreza concedido a alguém que se distinguia na comunidade. Embora a distinção pudesse recair em pessoas de bom trato, tinha por condão beneficiar os cabos eleitorais. Era uma recompensa das boas. Mas, ao receber o encargo, poucos faziam bonito que nem Seu Libório. Ele julgava questões de diferentes searas: desonra de moça, roubo de gado, rumo de cerca, herança, pagamento de dívida e rixa de vizinhos.

O caso mais intrigante por ele julgado foi a questão da besta de Nininha, uma mulher de vida livre que morava vizinho a Zé de Gonçalo, caboclo meio valente e botado a namorador. Seu Zé tinha um cavalo cuiudo e, quando a besta de Nininha entrou no cio, os animais se entenderam, de sorte que a égua pegou barriga. Tanto Nininha quanto Zé de Gonçalo eram conhecedores do acasalamento dos bichos. Mas, o pobre cavalo, dias após a arruaça com a besta de Nininha, apareceu sem forças, sem comer e sem beber. Como se tivesse passado o vento, em três semanas, bateu a cassuleta. A morte do garanhão deixou Zé de Gonçalo desassossegado, inconformado.

Quando a besta de Nininha pariu, Zé achou que tinha direito sobre a cria, vez que era produto da arte de seu cuiudo falecido. Chamou Nininha para uma conversa, pensando em convencê-la de lhe passar o poltro como lembrança de seu animal que se fora. Nininha ficou mal satisfeita e trovejou em dissabores, com palavras baixas, irritando profundamente o vizinho.

A querela foi esbarrar no telheiro de Seu Libório. Este, ao ouvir as partes, assim determinou: “Meus amigo, Zé de Gonçalo e Nininha, todos dois são eleitores do Chefe... eu nem tenho assunto para mode decidir esta questão de parimento de égua, ainda mais sendo de quem é.... Como poderia querer que o fio da égua de Nininha fosse se botar no lugar do cavalo defuntado de Zé de Gonçalo? Mas, meu Compadre Zé, preste a atenção: se o senhor fosse uma égua, e parisse um potrinho, não desejaria permanecer em companhia de seu filhinho?” Ao que Zé Respondeu: - queria, sim, sinhô! Então, respondeu Libório, como tu tá quereno se apossar do filho da égua da sua vizinha? Tome tenência, home! Nininha fica com a besta e com seu fio”! Enquanto eu tiver Cuma delegado, nenhum fio de cavalo fica com o pai. Todos os fios da égua ficarão com a mãe... a não ser que a besta seja da oposição! Assunto encerrado!

No sábado seguinte, quando veio para a feira, passou em casa de seu chefe e lhe narrou o ocorrido. O chefe assentiu: - tá certo! Já pensou se d. Selvilina, sua senhora, se arribasse com as crias de vocês dois, para nunca mais voltar? Então, julgou bem! Fio de égua fica com sua mãe! Você tá me saindo melhor do que o esperado. A continuar assim, trago tu pra vila!

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