SANTOS REIS, FESTA DA GRATIDÃO

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 07 de Janeiro, 2023 - Atualizado em 07 de Janeiro, 2023

SANTOS REIS,  FESTA DA GRATIDÃO

 

Aqueles a quem tradicionalmente deram o nome de reis, na verdade, eram personificações dos povos pagãos (não judeus) que, guiados por um sinal luminoso (estrela) de Deus, foram até a gruta de Belém, para adorarem o Menino Jesus, recém-nascido. Embora se trate de uma alegoria, uma construção de uma ideia teológica do chamado Evangelho da Infância, com a intenção de pôr em xeque o espírito religioso de Israel e o modo como o rei geria a administração do povo, em nome de Deus, o relato ganhou popularidade e ensejou muitas lendas, tradições variadas e festividades em torno de si.

A simbologia da Estrela, dos Presentes (ouro, incenso e mirra), com a visita a Herodes, o Rei de Israel que governava sob os auspícios do Império Romano, é muito importante para a mensagem que o texto bíblico deseja passar: Deus não se aprisiona em um esquema único. Ele é o Deus de todos! Basta que todos O busquem na Justiça e na Fraternidade, destituídos de qualquer presunção ou prepotência.

A cena parece milimetricamente planejada, construída, com o propósito de derrubar a presunção da força religiosa de Israel, a Arrogância de Herodes, para apresentar a sede de Deus que os outros povos, vizinhos ou distantes de Israel, manifestam, ao seguir o sinal luminoso, mesmo desconhecendo as Escrituras Judaicas. Deus fala onde, a quem, e como quer, quando deseja. Magos, não pertencentes ao povo da bíblia, considerados por este uma gente sem fé, sem credibilidade e sem dignidade, por não pertencer ao Povo eleito, seguem um sinal que sabem ser do Alto, de Deus. A Autoridade religiosa de Israel, que serve o Palácio de Herodes, embora legítima para interpretar as Escrituras, a ginora por completo. Sabia onde nasceria o Salvador, mas deixou no esquecimento o fato ocorrido em Belém. Em nome de Deus, rejeitou o Deus Menino, desconhecendo-o por completo.

Herodes, afeito ao poder, desses que de tudo fazem para se manterem no bem bom, sente-se ameaçado com o nascimento de um menino, filho de um casal pobre, da periferia da Galileia. Um contraste desmedido! A Estrela, que brilhou durante toda a caminhada dos Magos, ofusca-se em Jerusalém. O poder corrupto e corruptor ofusca a luz de Jesus. Deus nunca deixa de brilhar, mas nossa cegueira, por nossos olhos estarem voltados para o atrativo do poder, da força, da espada, do ódio, da vingança e das falcatruas que sustêm o poder político. Não há espaço para Jesus, neste ambiente desumano, que ludibria e solapa as consciências, retirando ao ser humano a dignidade.

O diálogo dos Magos é diretamente travado com o Rei Herodes: onde teria nascido o Rei dos Judeus? Na verdade, é o próprio Herodes quem se considera rei dos judeus; como lhe fazem esta pergunta desconcertante? De imediato, os “sábios” da corte, intérpretes religiosos das Escrituras, têm a resposta, embora a tivessem desprezado, porque, também, muito afeitos aos moldes de Herodes governar. Quem está próximo ao trono, e dele se beneficia, jamais ousará se levantar em contrário. Sempre foi assim e ainda hoje o é! A ganância pode obnubilar a sensibilidade, fechando-nos no ensimesmado e tosco modo de viver.

Quando ficam sabendo sobre o local do acontecimento, os Magos partem e, novamente, a estrela volta a brilhar. Longe da arrogância, dos mandos e desmandos, Deus ilumina o ser humano. Chegam à gruta indicada. Oferecem presentes: ouro, incenso e mirra. Ouro, riqueza, realeza; ao presentearem Jesus com ouro, querem dizer que toda a riqueza ou realeza só têm sentido, se a serviço da Vida. Incenso: a humanidade está nesta esfera existencial, mas imersa na transcendência, isto é, na capacidade de ser para Deus, de mergulhar no Reino dos céus. A Mirra, perfume com que se curavam as feridas, e se ungiam os corpos para a sepultura. Refere-se ao sacerdócio ministerial de Cristo. Ele é Rei-Servo, Deus-Salvador e Sacerdote-Oferenda-Altar. Ali, naquela simples criança, nascida em lugar inóspito, Deus, em sua total aparência de fraqueza, revela-se totalmente forte, poderoso. O mesmo vai-se dar, no episódio do Calvário, quando todos vê-lo-ão como um fracassado, condenado, ele revela todo o poderio de um Deus misericordioso e redentor: “Tudo está consumado”.

O arremate do texto é genial: “avisados em sonho, não voltaram a Herodes, mas seguiram por outro caminho”. Quem se encontra com Jesus, ainda que sob a aparência de um esmolambado recém-nascido na periferia, numa gruta onde os animais comem e passam a noite, não pode dar guarida a ideias ensandecidas de um rei genocida, que manda matar inocentes. Talvez, resida aqui a razão da popularidade que os “Reis Magos” adquiriram, nestes dois mil anos de história, sobretudo na Europa e no Brasil. A vontade que o povo tem de destituir os reis perversos, de consertar a vida, de se aproximar de Deus, de acolher o dom da Salvação. Daí, a ênfase nas variadas celebrações dos Santos Reis, que acarretam formas tão ricas de manifestações populares.

As chamadas festas de Reis, no Nordeste, ocasião em que as pessoas põem a melhor roupa, se ajuntam às melhores companhias, e se divertem, em parques, feirinhas, com guloseimas e bebidas, com brincadeiras sadias e familiares. As folias de reis que povoaram o Sudeste, Centro-Oeste e Norte do Brasil, com suas canções, orações, guloseimas, troca de brindes, partilha de comida, cantorias e muitas alegrias. Em outros rincões, não se trabalha, por se guardar o dia santo de Santos Reis. É a Ação de Graças, Gratidão, o humano agradecimento pelo dom recebido.

É a verve de um novo tempo, que deveria já ter chegado, um tempo de graça e fraternidade, de justiça e de paz. Tempo que fica, na maioria das vezes, no mundo das ideias, porque a estupidez que alimenta a manutenção do poder perverso de Herodes o retarda e o ofusca. Há ainda, visíveis contrastes entre a Gruta de Belém e o Palácio de Herodes; entre pagãos e religiosos fanáticos que se sentem donos de uma verdade que construíram; entre o Deus que nos criou à sua Imagem e Semelhança, e um deus que foi criado à imagem e semelhança da corrupção e da opressão de tantos povos, culturas e etnias; entre a religião opressora, dona do pedaço, e as manifestações populares, puras, sinceras, verdadeiras teofanias.

Santos Reis são muito mais do que reis. São ideias que se tornaram sinônimo de sede de justiça, de gratidão a Deus, de adoração reverente, de festa da Vida, de reconhecimento da misericórdia e da compaixão de Deus que, num menino que nasceu na manjedoura, mostrou a força de sua ternura e de sua redenção. Vivam Santos Reis! Viva a Gratidão!

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