NA COVA DA ONÇA

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 19 de Abril, 2023 - Atualizado em 19 de Abril, 2023

NA COVA DA ONÇA

 

Godofredo era homem franzino, mas de muita parrança e de uma coragem medonha. Punha-se a pé, noite a dentro, a fachear rolinhas, cabeça vermelha, ou, quando a sorte o ajudava, punha a mão no buraco dos tatus e não lhe escapava um. Se a noite era de lua, ele ficava mais disposto ainda, porque nem gastava as pilhas de seu luzeiro, uma velha lanterna que ganhara de um tio que a trouxe do São Paulo, na quadra de quarenta.

Era afamado, pelo bom trabalho diurno na roça, quando abria mil covas cavadas para inhame num único dia, mas ainda tinha maior fama a sua arte de caçar e de se embrenhar mato a dentro, à procura de uma caça gorda. Sua família lhe dava conselho para não andar sozinho por dentro das matas, pois a caipora, a luzerna, ou outra coisa ruim, poderiam encantá-lo e ele nunca mais daria o ar da graça. Qual nada! Gostava mesmo era de vomitar sua parrança de gente destemida, toda boca de noite, na bodega de Tonho Malaquia, nas Candeias. Ali, tinha trago certo, reunião de amigos que vinham para o escutar nas lorotas diárias, misturadas com uns goles da branquinha. Somente quando o bodegueiro anunciava o fim do expediente, ele se botava para as caçadas, em companhia de seu vira-lata, Cocó.

Godofredo não se amofinava quando o trato era o de assentar valentia. Contava as inúmeras histórias de suas caçadas, em noites de breu ou sob o encanto da lua cheia. Estava sempre ali, pontualmente, antes das Ave-Marias do rádio de Aracaju. Assim que batiam as seis, o dono da casa pedia uma horinha de silêncio, a fim de assuntar a reza devocional. Godofredo respeitava, mas não cria que aquilo fosse o suficiente para o cabra ter coragem. Ainda mais, uma santa que ninguém sabe onde viveu... Ele gostava era de rezar à Mãe das Candeias, que era santa valente, mulher de coragem. Mas aquela Ave-Maria..., sabe-se lá donde era.  A Mãe das Candeia alumiava suas entradas no mato, a fim de lhe apontar a melhor caça, mesmo em noites cerradas de trovoadas. Ela o livrava dos entreveros, indicando-lhe sempre uma trilha boa de prumo.

Todo mês de fevereiro, ele oferecia para o leilão da festa das Candeias, uma galinha gorda, um peru e uma dúzia de ovos para deitar. Foi promessa feita, desde quando começou a sua vida nos matos, com as bênçãos da santinha alumienta. Não fosse ela, nada de valentia nele se poderia ver. Mas era segredo dele e dela. Nem sua falecida mãe, Candinha de Quitó, conhecia este sigilo. A caipora já tentou abocanhá-lo por uma dezena de vezes, mas a sagacidade dele era maior. Do mesmo modo a luzerna, fogo corrediço que engabela as moças e os rapazes, nas noites sem lua, tentou em vão atrapalhar seus passeios pelo mato. Ia longe até o Jacarecica, na passagem do Tijolo, e voltava, antes da meia noite, sem que nada lhe acontecesse. A Mãe das Candeias é forte!

Godofredo só usava uma baleadeira e uma lanterna, quando era quadra de fachear. Nunca usou arma de fogo, e, se visse bicho grande, resolvia no braço. Já entortou o cavalo branco da meia noite, a caipora, o saci e uma meia dúzia de lobos brabos. Quando ele agarrava um desses, o bicho amansava logo e saia tremendo de medo. Uns até nem lhe chegavam perto. Um dia, graças a sua astúcia, empatou a caipora de beber o sangue de uma das vacas de Domingo de Dalena, um velho amigo da região. O cavalo de seu Arbaninho também passou aperto, ao se deparar com uma sombra do cavalo branco da meia noite. Foi serviço feio: O bicho deu pra relinchar e para correr, sem rumo, rasgando tudo quanto é cerca, pulando valado de macambira, ganhando a estrada do Central, e foi parar na Tabua, graças aos arroubos de Godofredo. Quando ele alcançou o animal, pisou na sombra do bicho branco – que deu dois suspiros e soltou fogo pelas ventas – mas deixou o pobre pangaré em paz. De tanto sofrido o cavalinho, Godofredo veio puxando-o por um cabresto que improvisou com cipós de Imbé e não subiu no pelo.

Tudo tem uma desdita, uma desventura na vida. Numa sexta-feira da quaresma, quando não se deveria caça, nem fachear, para não agravar ainda mais os sofrimentos de Deus, nosso Senhor, Jovita, a esposa do valente caçador, encontrou-se com desejos de barriguda, e pediu que ele fosse ao Jacarecica para lhe trazer uma meia dúzia de camarões, o suficiente para um frito. Ele, desacorçoado, relutou e relutou, mas a teimosia de Jovita era mais forte do que sua valentia de caçador, e ele acedeu. Botou-se no mato, com um manzuá a tira colo, a fim de não fazer infuca com Jovita. Não gostava de lhe desagradar, ainda mais quando buchuda. Era homem de bem e bem casado. Para que enganjentar com a mulher, se ela sempre é quem tem a razão? Deus poderia lhe perdoar...  mas Jovita certamente não! Arrancou-se pelo mato, à procura de um poço que lhe desse os camarões que a mulher estava desejando.

Na Passagem da Vaca, quando o poço retinha uma boa porção de água, fincou o pé e armou o manzuá, na intenção de cumprir o mandado que recebera de sua consorte. Cocó grunhia sem parar, e ele não via do quê. Tentou, debalde, acalmar o cachorrinho, que se pôs à beira d’água, rosando, grunhindo, dando ares de desespero. De repente, o manzuá deu um estalo medonho, coisa se ouvir a légua e meia de distância! O Manzuá estava repleto de grandes camarões, assemelhados a pitus... mas mordiam raivosamente as varas do manzuá. Foi a primeira vez que Godofredo corou. Mesmo assim, começou a apanhar os bichos e botá-los na capanga de couro, que se encheu de repente. Ele se apressou em retirar o manzuá das águas, mas, cada vez mais ele ficava pesado de tantos camarões gigantes. Godofredo o deixou de lado, e rumou para casa. Cocó havia desaparecido de sua vista. Encontrava-se sozinho, envolto pelo tilintar das cerdas dos camarões a roerem a capanga que era de couro cru, para a sorte do caçador.

Chegado ao barraco, Jovita, já com o fogo aceso, foi cuidar dos camarões, e o marido retornou à procura de Cocó, intencionando retirar da água o manzuá que ficara repleto de camarões. Ao chegar ao poço da Vaca, o manzuá tinha-se partido, e não havia um só camarão nele. A água estava quieta, como sempre. Nada de Cocó. Apenas a brisa da noite sussurrava sobre as folhas do arvoredo que margeia o Jacarecica. Dando-se conta de que perdera a viagem, rumou para casa, com certo remorso, pois nunca avistara coisa igual. O caminho para casa era obra de meia légua, mas sua vista estava embaraçando, e um peso no pescoço o punha para baixo, indicando-lhe que não chegaria à casa, para comer dos camarões com a esfomeada Jovita. Desmaiou.

Com a barra do dia, voltou a si e se viu frente a frente com um grande gato, que lhe mostrava uma afiada dentadura, com unhas avantajadas, olhos acesos, à espreita de o apanhar, num só ataque. Desviou o olhar do tal bicho, e viu os filhotinhos a vadearem com Cocó, sem qualquer malefício. Percebeu que estava na cova da onça, donde deveria fugir, de imediato, sob pena de nunca mais ver a luz. Ao se mover, porém, sofreu um só golpe, e deu um grande grito.

Jovita, assustada, o despertou, ao ver que Godofredo estava exalando estranho odor.... que explicação o pobre daria, ao entardecer daquele dia terrível , na bodega de Malaquia?

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