INDEPENDÊNCIA: LIBERTAS, QUO VADIS?

José de Almeida Bispo, 29 de Agosto, 2022 - Atualizado em 29 de Agosto, 2022

 

 

Estamos chegando a 200 anos do Grito do Ipiranga, como ficou imposto à cultura nacional, mais de patriotada do que de patriotismo. O brasileiro faz pouco caso dos símbolos nacionais (exceto em copas do mundo e certas campanhas políticas). Seria uma data especial. Dois séculos. Mas não é isso que o povo sente. Por mais decretos que se façam porque ninguém consegue obrigar ninguém a amar algo por mera imposição.
Males de origem, parafraseando um título de Manuel Bomfim.
Portugal, era um império, máxime de comerciantes, subjugado pelo maior poder do planeta, a Inglaterra, e lutando para se manter vivo.
Uma revolução na França ameaçando a se espalhar para outras monarquias forçando o regente do claudicante império a tomar uma decisão, sob ameaça de ser invadido: mudar a corte para a parte mais rica e também mais poderosa do império, porém, simbolicamente uma colônia: o Brasil.
Ameaças no reino forçaram o jovem rei a retornar. Enquanto isso, o banqueiro que salvou as monarquias da anarquia imperial napoleônica juntou uma montanha de ouro para sustentar uma guerra longa que acabou em Waterloo, rápida demais; e banqueiro não ganha dinheiro com ouro parado; banqueiro ganha dinheiro com dinheiro. Converter o ouro em dinheiro e emprestá-lo. A juros.
O jovem rei D. João VI estava vendo a restante grandeza do seu império escorrer pelos dedos, acossado, primeiro por Napoleão; depois pelo compromisso com a corte inglesa, cujo rei Jorge IV o trouxe para o Brasil escoltado, mas, ao morrer em 1820 todas as nuvens política mudaram de forma, e Guilherme IV que o sucedeu não teve os mesmos compromissos.
Agitações liberais sacodiam o Brasil, com Pernambuco querendo Independência; e o Porto, queria submeter o Brasil a reles colônia como antes, embalados pelos suculentos contratos com os lordes ingleses. O vigoroso comércio da Bahia, caudatário dos revolucionários do Porto, se mantiveram com o rei na Revolução Pernambucana de 1817, mas só enquanto a mesma durou.
Percebendo o cipoal de interesse por trás desses revoltosos, D. João VI se viu forçado a retornar para Lisboa, depois de treze anos; mas, ardilosamente deixou seu herdeiro, D. Pedro no governo do Brasil. Um golpe de mestre; como quando deixou Napoleão literalmente a ver navios, os da esquadra que o transportou de Lisboa para o Rio de Janeiro. Deve ter pensado: na pior das hipóteses, se o Brasil proclamasse Independência, Pedro assumiria o trono e que, assim que ele, D. João falecesse, o mesmo reclamaria o trono e o império estaria recomposto mais uma vez.
Mas não havia apenas interesseiros ingleses e manés do Porto ou Salvador interessados em melar o jogo: havia também Carlota Joaquina, a rainha, espanhola e que também sonhava, mais uma vez com a união das coroas, desde que sob o comando de Madri, sob seu filho D. Miguel.
Voltando ao centro do poder mundial, a Inglaterra tinha vencido Napoleão com custo, digamos reduzidos. A exemplo dos Estados Unidos de desde a Segunda Guerra, Londres sempre se cercou “dos aliados” para fazer grandes guerras. Foi assim contra a Rússia, contra a China, e tudo começou pelo sucesso das várias campanhas “aliadas” contra a Revolução Francesa, durante vinte anos, culminado com Waterloo.
Com dito antes, Waterloo foi uma surpresa: todo mundo na Inglaterra esperava por cinco ou até mais anos de guerra. Todavia, o cansaço de Napoleão Bonaparte e dos próprios franceses, depois de seis anos de revolução sangrenta e mais vinte de guerra permanente com o estrangeiro, e a França estava exausta. Contou também o vil metal distribuído a alguns importantes oficiais franceses para quebrar a coluna do exército que varreu a Europa. Mas sobrou muito ouro acumulado. Onde empregar para render? Ouro não rende juros.
Fácil, fácil de resolver a equação: fez-se nascer um tesouro nacional novinho em folha, até então inexistente. No Brasil “independente”. Nem precisou trazer o ouro emprestado. Nem era preciso; bastou-se dar as garantias em libras esterlinas. Em Londres. Coincidentemente nasceu em Londres “nosso” primeiro jornal. Para falar bem de Londres à nossa elite no Brasil, depois da papelama sacolejar nas naus inglesas por dois meses no Atlântico.
Ao fim da década de 1820, podia o embaixador brasileiro relaxar numa visita à Downing Street; mas ao escritório do Sir Nathan Rotschild, o banqueiro dono do Brasil, jamais.
Artigo do confrade Antônio Carlos dos Santos (professor da UFS, Departamento de Filosofia), publicado no Cinform de hoje e intitulado O QUE TEMOS A COMEMORAR NO DIA 7 DE SETEMBRO DE 2022?, a questionar a frieza com que se está a comemorar essa data magna que seria – 200 anos, dois séculos – um momento de esplendor na construção da nossa história me levou à essas observações, meio herege, completamente descolada da História oficial, a do governo e a da oposição, que teima em ignorar as reais fontes de quase todos os nossos fracassos como nação, sempre seguindo o “mainstream”.
Porém, independente das nossas mazelas passadas... temos um país. Seria de bom alvitre respeitá-lo e amá-lo com denodo e devoção.

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