DE SONHOS, DERROTAS E VITÓRIAS.

José de Almeida Bispo, 19 de Setembro, 2022 - Atualizado em 19 de Setembro, 2022

1986 foi um ano ímpar, em termos.
Pessoalmente, foi-me um desastre. Barnabé federal, tive meu salário congelado pelo Plano Cruzado, justo no momento de reajuste, numa inflação semestral que beirava os 80 por cento: em nome de uma hipotética deflação que não teve. Isso num cenário de corrosão salarial acelerada, desde que a Ditadura tinha perdido completamente o controle, dez anos antes.
Já coletivamente, o que se respirava era esperança. João Alves Filho estava deixando o Governo de Sergipe. Aquém das expectativas, sempre exageradas; mas o estado tinha caminhado célere com seu primeiro governante do povo, o Negão, eleito em 1979, com quase 80% dos votos. E aqui sejamos justos, desde os dois governos anteriores: de José Rolemberg Leite, 1975-1978; padrinho político de João, e Augusto Franco, 1979-1982.
Nacionalmente ainda ecoava o Coração de Estudante de Milton Nascimento nos lembrando do grande momento, da grande catarse que quase foi o Governo Tancredo Neves; situação abortada pela morte do primeiro presidente civil depois de vinte e um anos de governos militares, alguns governando contra seu próprio povo em benefício de uns poucos.
Havia magia no ar. E, especialmente uma palavra ecoava no léxico popular: Constituinte!
Alguns eram reticentes sobre uma nova Constituição. Seria apenas mais uma.
A de 1946, que tanto prometeu, ao menos em se tratando de Nordeste, de Sergipe e máxime Itabaiana acabou num desastre. Feita para ser liberal e ao mesmo tempo intervencionista levou a grandes inconsistências e situações de perigo como a gerada em Itabaiana onde, por um lado gerou Euclides Paes Mendonça; por outro deu no comando dos coronéis da política sergipana que o estraçalharam e ao seu filho às 16 horas e 30 minutos, aproximadamente, do dia 8 de agosto de 1963, via Polícia Militar.
A de 1967, da Ditadura, nem bem começou e a pressa e arrogância dos apressadinhos passaram por cima dela com os infames Atos Institucionais.
Enfim: pairava a desesperança em parte substancial do povo. Mas do outro lado, galvanizados pela Abertura, pluripartidarismo, eleições diretas para os governos estaduais, Diretas-Já, eleição a lá Ditadura pelo Colégio Eleitoral de Tancredo Neves, o trauma da sua morte, muito se sonhou.
Em janeiro, pessoalmente tive contato com os trabalhos à pré-Constituinte. Uma edição do Boletim Interno da Fundação SESP/MS, onde trabalhava, ao tempo em que notificava para março a 8º Conferência Nacional de Saúde, licenciava a todos que quisessem ir à Brasília para aquele que seria o grande momento da virada na Saúde Pública nacional, porque, não se restringiria a discutir problemas pontuais e apontar saídas aos gestores maiores como foram as anteriores; agora era uma espécie de Constituição da Saúde, para embasar os debates políticos e soluções que viesse a ser negociadas durante a Constituinte, viesse ela quando viesse. E veio em 1988.
Ali nasceria a ideia do SUS; criado oficialmente no 19 de setembro de 1990.
E eu lá não fui. Até hoje o cotovelo dói. Mas o que saiu foi o melhor possível. Hoje, quando se olha para o sistema de saúde nacional e se compara com quatro décadas anteriores, ou mesmo com nações mais ricas, porém que tem sistema diferente é que se descobre porque numa pandemia como passamos, com a discusseira infeliz, semeando confusão de quem está na cabeça do sistema de liderança, justamente para gerar certeza, mesmo assim a Saúde Pública deu um banho de eficiência. E essa eficiência vem sendo presente onde a Segurança falha fragorosamente – acidentes de trânsito e assassinatos – no Saneamento Básico, ainda é precário; e até onde a Educação tem lá suas falhas, uma vez que focada apenas em conteúdos concurseiros, desde a pré-escola.
Coincidentemente, o Hospital Regional de Itabaiana, cuja construção do primeiro é de 1937, mas só entrou em operação dez anos depois, e se manteve até a Constituição no regime vaga-lume, em 1989 - um ano depois da Constituinte, e um ano antes do SUS -  entrou em operação definitiva; sem mais paradas, totais ou parciais, por falta de insumos. Graças ao SUS.
Parabéns e feliz aniversário!
Conquista do povo brasileiro.

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