QUINTINO DE LACERDA E A CONSCIÊNCIA NEGRA

José de Almeida Bispo, 19 de Novembro, 2023 - Atualizado em 19 de Novembro, 2023

Num dia qualquer, de 1874, que se perde nas dobras do tempo, vindo do povoado Flechas trilhou pela última vez, no rumo sudeste, em direção à ainda vila de Itabaiana mais um dos tantos miseráveis, que pululavam naqueles tempos, como se fossem animais.
Provavelmente deve ter passado no Cartório de 1º Ofício, que sempre cuidou da papelada relativa a bens, para então, embocar pela Rua Coronel Sebrão, então Beco Novo (e ainda hoje), saída principal da minúscula urbe, em direção aos portos do rio Cotinguiba, e aí tomar rumos aos sertões paulistas. Certamente, amarrado, encangado e conduzido por algum truculento soldado.
Saiu da casa de seu ex-dono, Antônio dos Santos Leite, num sítio nas Flechas, vendido sob o ardil de o ter roubado. Impossível se confirmar a veracidade da acusação, porque os senhores de escravos tinham total ascendência sob a vida e morte de seu “animal humano”. Pode ter sido um ardil para driblar as leis da Província de Sergipe, que então proibia terminantemente a venda de escravos para fora do estado. Salvo “por força maior”.
O fato é que Quintino lá se foi miseravelmente como até então vivera nos algodoais das Flechas, rumo a um lugar desconhecido, porém, mais do mesmo, para trabalhar de sol a sol, de segunda a sexta, de graça para o dono, e sob chibatadas ou ameaças delas; e, usar o sábado, de vez em quando para produzir o que comer, em geral em terras de baixa produtividade.
Mas o espírito serrano não o deixou abater-se. Na primeira oportunidade que teve com seu talvez segundo senhor em terras paulistas, demonstrou inteligência, lealdade e fidelidade tornando-se desde então um fiel escudeiro do seu dono, Antônio Lacerda Franco, que, em 1882 o alforriou, e o tornou empregado de confiança de sua megaempresa de exportação de café.
Por sua vez, Quintino, ao invés de atitudes passionais, e por isso inconsequentes no trato com as injustiças sociais, usando o bom senso começou a atividade abolicionista que o poria como referência dos abolicionistas, a começar da própria Princesa Isabel. Com firmeza, mas sem estardalhaço.
Morto o seu protetor e amigo, Lacerda Franco, herdou-lhe o nome, passando a ser Seu Quintino de Lacerda; bem como as propriedades do mesmo, entre as quais a grande fazenda nos arredores de Santos, a Jabaquara, que já então recebia negros deserdados, incluindo fujões. O local, antes da década de 1950, totalmente urbanizado, foi onde o Santos Futebol Clube ali construiu nas fraldas da dita fazenda seu ainda hoje famoso estádio da Vila Belmiro.
O escravo das Flechas, vendido como ladrão chegaria em 1895 ao posto máximo da administração santista, quando se tornou presidente da Câmara Municipal; o que automaticamente o deixou como prefeito, já que essa figura pública não existiu até a primeira Constituição republicana, recaindo a administração municipal no presidente das câmaras municipais, ou presidente do Conselho Municipal.
Ainda foi condecorado pelo Presidente Floriano Peixoto, recebendo o título honorário de major do Exército.
O negro, repito, vendido como um escravo ladrão das Flechas, se tornou, até o presente momento, nosso maior vulto nacional.
Itabaiana já o homenageou, com o nome de uma emblemática rua. Porém, acredito que o dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, pode - e deve – se tornar também o Dia Municipal da Consciência Negra, evocando, repito mais uma vez, nosso maior vulto nacional.

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