Os Ovos da Serpente

Marcio Monteiro, 08 de Novembro, 2020 - Atualizado em 08 de Novembro, 2020

As manifestações de protesto pelos brutais assassinatos dos americanos, George Floyd, em Minneapolis (MN), e de Daniel Prude, em Rochester (NY), desencadearam uma reação de indignação da comunidade internacional, que resultaram em atos e manifestações de repúdio pelo mundo. Gente de todos os matizes e ideologias resolveu sair às ruas em solidariedade às famílias, e fazendo coro aos ativistas americanos, e em especial à comunidade negra.

A reação “sensibilizou” instituições tidas até então como ultraconservadoras ou avessas a qualquer tipo de posicionamento político, como há muito não se via, contra dois males que acreditávamos superados: o racismo e a crueldade humana.

O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) criado em 2013, ganhou ainda mais visibilidade e o apoio mundo afora através de ligas esportivas importantes em todos os continentes, passando inclusive a integrar os protocolos de abertura dos jogos. Os clubes, por sua vez, passaram a observar com maior cuidado a não permissão de acesso de torcedores contumazes, que manifestam suas frustrações por terem perdido um jogo ou um lance do seu clube, desqualificando atletas não brancos através de ofensas raciais, banindo-os definitivamente das arenas esportivas.

Quanto aos lamentáveis casos de racismo e violência nos Estados Unidos, o que mais impressiona não é somente a violência, é a falta de escrúpulos dos agentes da lei, que mesmo sabendo que estavam sendo gravados através de câmaras de lojas e de celulares de cidadãos que presenciaram tais atos, persistiam em promover abordagens desastrosas e fatais, acreditando na impunidade.

Hoje é quase impossível ficarmos fora dos olhos tecnológicos que nos monitoram 24 horas por dia, seja através celulares ou de câmeras de segurança em casas e estabelecimentos comerciais, e mesmo assim alguns agentes públicos não se importam, numa triste constatação de que ainda pairam nuvens sombrias atemorizando a vida de gente comum, que por questões biológicas nasceram com a pele mais escura ou com os olhos puxados.

Gostaria muito de ver a reação de um racista branco recebendo o coração de um George ou Daniel, tendo conhecimento de ter recebido a doação do órgão após a operação de transplante. Será que o paciente receptor passaria a ver o mundo com outros olhos? Entraria em outra fila de transplante? Morreria de ataque cardíaco? Certamente o paciente aceitaria receber a doação e aceitar a sua nova condição e domando os seus piores instintos.

O aparelho policial americano tem na figura do Xerife, a maior autoridade dos condados, figura escolhida em votação pela comunidade, e que naturalmente preza pelas condutas policiais que atendam aos interesses dos que o elegeram, diga-se de passagem, eleitores predominantemente brancos. Além do poder natural delegado à policia local, ela pratica abordagens e dispõe dos mesmos recursos tecnológicos utilizados pelas das forças armadas.

Portanto, só estando em surto psicótico ou fora do juízo perfeito para confrontar policiais ou militares norte americanos. O capuz que selou a vida de Floyd, ilustra bem essa associação entre práticas militares e às empregadas nas ruas pelos agentes da lei. E o caso de George Floyd foi flagrante ato de racismo, mas em relação a Daniel Prude o que vimos foi pior! Foi cruel e violento!

No caso de Daniel, assistimos uma sessão de tortura contra um ser humano nu, em surto, andando por uma rua vazia, sendo imobilizado com as mãos algemadas nas costas e com um capuz colocado maldosamente num dia de chuva e neve, sem que ele representasse qualquer risco aos policiais, apenas reagindo instintivamente, já que não tinha consciência de suas ações. Mesmo assim Daniel foi maltratado como um animal pelos policiais que deveriam simplesmente contê-lo e aguardar a chegada dos paramédicos para sedá-lo.

No entanto, os fatos têm demonstram que o ranço segregacionista e o uso da violência na solução de conflitos, permanece latente, como uma serpente, que vez por outra deixa eclodir os ovos de ódio racial e da violência sem limites, em solo norte americano, com um único propósito, o chamar a atenção e lembrar para os negros da sua condição de inferioridade em relação aos brancos nativos que controlam a segurança pública nos condados.

Na realidade as conquistas anunciadas há mais de cinco décadas (1968), logo após os assassinatos do doutor Martin Luther King Jr. e do senador Robert Kennedy, sobre o fim do apartheid e da violência, dentro e fora do país, não mudaram de fato o pensamento branco nativo dominante. Aceitar cidadãos afro-americanos, latinos ou amarelos com olhos puxados como seus iguais, é de uma cretinice absurda, pois jamais sensibilização a grande maioria branca dos nativos americanos, que no passado perdeu a Guerra da Secessão, mas que nunca deixou de ostentar a bandeira confederada.

Os americanos dividiram o mundo em dois lados: o dos americanos brancos puros nativos e o resto do mundo, com o agravante de terem incorporado ao seu DNA o gene da beligerância, como forma de imposição pela força sobre qualquer nação que pense em contrariar seus interesses político-econômicos. Fato que pode ser constatado ao compararmos o branco norte americano o branco europeu. O europeu que deu origem ao nativo americano, não demonstram ter no seu DNA a mesma propensão de beligerante dos brancos americanos.

O racismo é sempre associado a atos contra pessoas negras ou pardas, mas etimologicamente o termo tem uma conotação muito mais ampla, abrange o preconceito e discriminação com base em percepções sociais baseadas em diferenças biológicas. Num país onde afro-americanos e os descendentes asiáticos somam apenas 15,9% da população, não há como imaginar mudanças efetivas como as que foram sonhadas por King e Kennedy.

O movimento Black Lives Matter sim, talvez tenha encontrado a forma ideal de combater o ódio racial, conseguindo a adesão de grandes corporações americanas à causa e fazendo ver aos investidores sobre os riscos que corriam os seus empreendimentos milionários, caso persistissem em ignorar os atos violentos que estavam acontecendo nas ruas das cidades americanas e do momento ruim nos negócios em consequência da C-19.

Em certa medida podemos fazer um paralelo desses acontecimentos com o problema do desmatamento no Brasil. Foi preciso que os grandes mercados consumidores do de produtos brasileiros ameaçasse impor barreiras econômicas à importação de produtos do nosso agronegócio para que o Governo Federal mudasse o discurso e tomasse providências, passando a dar a devida importância a um assunto que estava praticamente fora da agenda governamental do país.

O que ficou claro nisso tudo é que só existe uma forma para enfrentar o ódio, a violência e a ignorância, é usar a inteligência para colocar em risco os ganhos de capital de segmentos importantes da economia, mesmo sabendo que a serpente do ódio permanecerá viva, gestando ovos que podem eclodir a qualquer instante, produzindo males ainda mais terríveis.

Prova disso foi a mais recente e desastrosa abordagem policial, ocorrida contra o Jacob Blake, em Kenosha (WI), na qual um policial alvejou-o por sete vezes nas suas costas, e não se sabe bem porque razão e diante dos filhos e que estavam dentro do veículo em que ele foi alvejado. Blake não morreu por milagre, recebendo três dos sete tiros disparados pelo policial, mas ficará paraplégico.

Qual o sentimento de um indivíduo veterano na policia capaz de disparar sete tiros nas costas de um suspeito, na frente de seus filhos? Se a palavra não for ódio, que substantivo usar? Os Estados Unidos é um belo país e tem uma história rica e fascinante, mas o gene racista e belicista não morreu na Guerra de Secessão, ficou latente no DNA da grande maioria da população e estão longe de sofrerem alguma mutação benigna.

Os recentes acontecimentos abomináveis de violência contra os negros, logo serão esquecidos, entretanto, serviram para mobilizar a comunidade negra a votar nas eleições deste ano. Apesar de pouco representativa em alguns estados, o voto dos negros representa 13% da população dos EUA, podendo fazer a diferença nas eleições americanas, contribuindo para redutos tradicionalmente republicanos somem parlamentares para o bloco Democrata, na Câmara e no Senado. Os negros entenderam que para dominar a serpente supremacista e fazer valer os valores da democracia só existe um caminho: o voto.

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