8 de dezembro: candomblés e igrejas católicas em festa.

Carlos Braz, 06 de Dezembro, 2020 - Atualizado em 06 de Dezembro, 2020

8 DE DEZEMBRO:  CANDOMBLÉ E IGREJAS CATOLICAS EM FESTA

Por Carlos Braz

O culto ao Orixá Oxum, no Brasil, confunde-se com o de Yemanjá, (Ye/Omo/Ejá) sua mãe. Sem sombra de dúvidas Yemanjá é o orixá mais popular do Brasil, festejado também em Cuba e outros países costeiros onde as religiões de matriz africana sobreviveram à diáspora patrocinada pelo tráfico negreiro. Como outros ancestrais nagôs seu culto em nosso país passou por um processo de interpretação simbólica e ressignificação devido a necessidade de preserva-lo culturalmente, já que os afrodescendentes do Novo Mundo, na condição de escravos, não tinham liberdade religiosa, e, nesse contexto adverso, o sincretismo religioso se impôs como forma de resistência.

Ao longo da história a divindade recebeu elementos que lhe afastaram da sua imagem ancestral, presente no inconsciente coletivo africano. Em um processo de transformação visual imposto pela necessidade de sobrevivência religiosa, quase sempre a figura de Yemanjá é representada por uma mulher branca, de cabelos lisos, ancas largas e seios volumosos, ou seja, características que não pertencem a etnia africana. Desde cedo foi associada às sereias, que não podem ter filhos e são consideradas encantadoras de homens, os quais arrasta para as profundezas oceânicas, em contraste com a natureza da rainha do mar nagô, considerada possuidora do princípio criativo da fertilidade, presente também na terra, nos grãos, nos rios e mares, e em todas as mulheres e seus filhos que compartilham desse poder conferido pelas Grandes Mães.

Na cultura africana, o princípio da fertilidade está em tudo e garante o equilíbrio das coisas, mantendo-as entrelaçadas como escamas.   No universo da ancestralidade nativa ela está no começo da criação do mundo, com uma profunda relação com o elemento água, cheio de significados na maioria das civilizações.

Com relação às oferendas levadas ao mar no seu dia, 2 de fevereiro, trata-se de uma prática antiga que pode ser encontrada, com algumas particularidades, em muitas povos diversos do mundo antigo, e mesmo nos dias atuais. Representa a troca de presentes com os deuses responsáveis pelo bem estar das comunidades.

Em Aracaju, o povo de santo e seus simpatizantes veneram no dia 8 de dezembro tanto Oxum quanto Yemanjá. O cortejo/culto já é tradição e nos últimos tempos vem se revestindo de um caráter ecumênico, em consonância com a ideia de liberdade religiosa e respeito à diversidade cultural. Nessa mesma data, a comunidade católica de Aracaju festeja a Imaculada Conceição, padroeira da capital.

Na idade média, o culto aos santos católicos era obrigatório, e no longínquo século XIV a festa do dia 8 de dezembro era comum em diversos locais da Europa, difundindo-se gradativamente por todo mundo católico por orientação papal. Em Portugal, não se tem data definida para o início da devoção à Nossa Senhora da Conceição, contudo, documentos comprovam que teria a primeira festividade ocorrido em 8 de dezembro de 1147.

Na América portuguesa o culto a Maria nos chega pelas mãos dos padres da Companhia de Jesus, e em Sergipe adentra com a fundação de São Cristóvão em 1590. A criação da paróquia de Nossa Senhora da Conceição ocorreu em 1718, com a permissão de D. Sebastião Monteiro, Arcebispo da Bahia.

Com a mudança da capital para Aracaju em 1855, seu fundador, Inácio Joaquim Barbosa designou Nossa Senhora da Conceição como protetora da cidade, já considerada protetora do Império. Com a consolidação do catolicismo como religião oficial do Brasil o culto à santa transformou-se em tradição, arrastando uma multidão de fiéis pelas ruas das cidades de todo o país. Nos últimos anos, em nossa capital, a presença de sacerdotes de religiões de matriz africana nessas cerimonias demonstra o espirito de alteridade e respeito mútuo entre os seguidores de cada religião.

 

 

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