Os gênios existem? (Por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 21 de Agosto, 2023


 

Por circunstâncias, passei a observar a complexidade do mundo da cultura. Passei a perguntar, com o amplo domínio da globalização cultural, ainda existe uma cultura local. Se existe, do que se trata?

Descobri que os talentos locais são sufocados pela falta de oportunidades.

Um exemplo:

A alma de Caio Trajano transborda de criatividade artística.

Entretanto, Caio é um talento socialmente nulo, sem o necessário reconhecimento. Caio é o tradicional gênio incompreendido. Ele espera que um dia, que sempre se atrasa, o seu talento o leve a glória.

“A arte serve para reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer em benefício da civilização. A arte oferece satisfações narcísicas substantivas, para os que foram pessoalmente educados.” - Freud.

A indústria cultural impõe o efêmero, como entretenimento. O critério único é a venda. Sem mercado, a arte não sobrevive apenas com os subsídios do mecenato público. O gosto das massas é criado pela própria indústria cultural.

A produção de mercadorias cria o desejo de consumo. Com a arte não é diferente.

O reconhecimento social de um talento artístico requer muito mais do que o próprio talento. O talento sem disciplina se torna ocioso. Uma grande obra requer talento e disciplina. É preciso encontrar o nicho, num terreno contaminado pela cultura de massa.

Por outro lado, o talento em um homem vazio, sem conteúdo, também apequena a obra. Não falo de erudição, mas de uma cosmovisão crítica. Contraditoriamente, esse mesmo vazio favorece a inclusão no mercado da indústria cultural.

E por último, o reconhecimento depende da formação cultural da civilização onde se vive. A sociedade é domada pela indústria cultural, pelo consumo do efêmero, pela arte enquanto entretenimento.

O talento precisa levar em conta a sociedade onde ele vive. A arte não é indiferente ao seu tempo.

Claro, os limites não são apenas pessoais. O social também pode inviabilizar os talentos, não oferecendo oportunidades. Ou as poucas oferecidas não serem percebidas. É comum na música, os gênios se transferirem para os centros culturais dominantes.

Ia esquecendo, o talento, como quase tudo, também depende dos caprichos do destino, da deusa fortuna, da sorte.

Como se percebe, o reconhecimento social do artista vai além da grandeza do seu talento.

Dito isso!

Caio Trajano, paciência! O dia da sua glória artística continua no horizonte.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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