Cordel é arte? (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 02 de Setembro, 2023



 

“O poeta quer o céu, a cova rasa lhe abraça.” – Aderaldo.

Assisti ontem em Itabaiana a conferência sobre o Cordel, do intelectual paraibano Aderaldo Luciano. Uma viagem poética de Leandro Gomes de Barros a pôs modernidade. Aderaldo acredita que o Cordel, nasceu com Leandro.

“Por que existem uns felizes E outros que sofrem tanto? Nascemos do mesmo jeito, moramos no mesmo canto. Quem foi temperar o choro E acabou salgando o pranto?” Leandro.

Uma constatação do palestrante: o Cordel é o paraíso dos charlatões. Mesmo os desprovidos da sensibilidade poética, acreditam que sabem fazer Cordel. E muitos ousam.

O Cordel também é visto como uma forma simplificada de transmitir uma ideia complexa, de forma que os mais rudes entendem.

Aderaldo fica impaciente com quem não entende que o Cordel é um ramo da literatura brasileira escrito com estrofação em sextilha, com rima soante alternada e versos de sete sílabas. Confesso a minha ignorância: nunca soube desse mistério.

Aprendi a ler com o Cordel. Ler de carreirinha e cantando. O meu avô Totonho, possuía um quarto cheio de livros Cordel e Almanaques. O seu livro de cabeceira era o “Lunario Perpetuo.”

Aderaldo Luciano me ensinou outras novidades: “que Cordel não é feito para se cantar e violeiros e cordelistas não se batem bem.”

Aderaldo já um caboclo rodado, cascudo, com perdão da palavra, um velho. Perguntei-lhe do que vivia. Ele respondeu sem pestanejar, da poesia. Lembrei-me da definição de escritor dada por Paulo Coelho. “Escritor é quem vide do que escreve.” Perdi o receio: Aderaldo Luciano é um poeta.

Sergipe sempre teve muitos poetas e pouca poesia, inclusive no Cordel. Mas tem gente talentosa. Não vou citar para não arrumar inimizades. Todos se considerem exceções.

Eu não sei responder o que é e o que não é arte. Um colega médico, filosofo, me diz abertamente: a arte não tem compromissos com a realidade social. A arte é eterna! Nada que seja útil pode ser arte.

Outro amigo, intelectual do mesmo calibre, acredita que a arte na pós-modernidade precisa causar impacto imediato, e logo sair da prateleira. Existe um excesso de oferta. A Arte é efêmera. feita para ser consumida.

É muita teoria!

“Hoje, a importância da obra de arte é mediada pela publicidade e notoriedade. Quanto maior a plateia, maior a obra de arte.” Baudrillard. Por esse critério, o Cordel está relegado. Nenhuma ontologia universitária considera o Cordel.

Como no início eu perguntei se o Cordel era arte, eu vou responder. Se o Cordel for de Leandro Gomes de Barros, José Pacheco, Izabel Nascimento, Aderaldo Luciano, Patativa do Assaré, entre outros, escrito por gente talentosa, poeticamente sensível, é arte.

Já o Cordel dos charlatões, gente simplória e pretenciosa, que pensa que o Cordel é feito para gente simples, e qualquer coisa serve. Esse não arte.

Sei que os teóricos das artes vão detonar essa minha compreensão, senso comum. Mas não tenho outra. O que me espanta, me causa admiração, eleva o meu espírito e estimula a minha alma, eu acho que é arte. O que não me toca, mesmo por minha insuficiência, para mim não é arte.

Tem uma terceira via. Coisas que não me tocam, por limitações do meu entendimento, quando um sabido me explica, eu termino me convencendo, mesmo sem muito entusiasmo.

“A poesia é um movimento escapista, de fuga para outro mundo”. Leandro Konder.

Aderaldo Luciano, seja sempre bem vindo a Itabaiana.

Antonio Samarone. Médico sanitarista.

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