Nada a declarar. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 17 de Novembro, 2023

 

Perdí um comprovinciano, aos 75 anos. Ele tirou a própria vida. O ocorrido encontra-se sob segredo familiar. Não se fala nisso.

Ele nunca aspirou a vida eterna, pelo menos de boca para fora. O tempo sempre foi o seu carrasco.

Segundo Albert Camus, só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia.

Lembrei-me desse bilhete, deixado por um suicida famoso:

“A todos!

De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso. Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída.”

Lília, ame-me.

Como dizem: caso encerrado. O barco do amor espatifou-se na rotina. Acertei as contas com a vida. Inútil a lista de dores, desgraças e mágoas mútuas. Felicidade para quem fica.”

Bilhete deixado por Maiakóvski, em 14 de abril de 1930, aos 37 anos. Entretanto, existe uma versão bolchevique, que diz que ele foi barbaramente suicidado. Não sei!

Deus não dorme!

O meu amigo, provinciano e anônimo, não deixou bilhetes, que sempre se espera dos suicidas.

Não se comenta nem a modalidade do suicidio. Certamente, não foi por enforcamento. A forca saiu de moda. Hoje predominam os suícidios químicos.

Fui ao seu sepultamento. Um velório silencioso. A pergunta clássica nos sepultamentos: “morreu de que, não foi ouvida.

Eu entendi o seu gesto: acho que foi um suicídio filosófico, desses descritos por Camus.

Espero que o meu amigo tenha econtrado um lugar de paz e a tão desejada felicidade. Ele não foi em busca do descanso eterno.

Antonio Samarone. Médico sanitarista.

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