"Os Persistentes Riscos na Produção Agropecuária"

Pedro Abel Viera Júnior & Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 29 de Novembro, 2019

Numa produção agropecuária pujante, financeirizada e profissionalizada, como a brasileira, a capacidade de administrar os riscos, constitui em elemento de sucesso na acirrada competição no contexto das cadeias globais. Em estruturas capitalistas rudimentares, os grupos de interesses historicamente alojados no interior dos privilégios estatais, buscam a proteção dos seus ganhos acumulativos em incentivos protecionistas, a exemplo de subsídios e “anistias”, expressões de artificiais disputas de mercado no ambiente das trocas capitalistas, do que em fatores de produção lastreados no empreendedorismo, na tecnologia e na inovação.

Os riscos na produção agropecuária, fazem parte da rotina dos produtores rurais, como profissionais empreendedores, distantes dos românticos e amadores agricultores do passado. Estiagens prolongadas em períodos de estações chuvosas, chuvas torrenciais acima das médias esperadas, ocorrência de pragas e doenças fora de curvas normais, desastres ambientais, consumidores seletivos e barreiras internacionais ao comércio, são alguns exemplos de “riscos agropecuários” com probabilidades de ocorrências. Antes desprezados, hoje potenciais e eminentes riscos. Na agricultura, em face da natureza do seu processo produtivo, as proporções dos danos, são potencialmente maiores que nos demais setores da economia.

O desprezo, por uma política de riscos, a exemplo de uma simples “matriz de riscos”, resulta em adicionais custos à atividade agropecuária, muitos deles debitados ao chamado “Custo Brasil”, e não à inadequada gestão dos negócios, que inicia no interior da propriedade e chega aos mercados. O mais comum tem sido a mitigação, ou mesmo a transferência dos riscos da produção agropecuária para os custos dos produtos, onerando os consumidores, às vezes absorvidos pelos incentivos da burocracia estatal, como um álibi da incapacidade competitiva dos agentes. O ideal seria, um pacto sustentável entre o Estado e o setor produtivo, com transparentes indicadores de identificação e monitoramento dos riscos por seguradoras privadas, reguladas pelas agências estatais e acompanhadas pelas representações dos produtores rurais, os tomadores dos créditos e os diretamente interessados nos riscos.

A exposição aos riscos no universo da produção das “agriculturas brasileiras”, varia de acordo com o padrão competitivo e desigual dos grandes e médios produtores e dos agricultores familiares. Todos devem ser contemplados e cobertos os persistentes riscos, considerando à capacidade de suporte, ganhos, perdas e probabilidades de suas ocorrências. Uma classificação pedagógica desses riscos, longe de sua linearidade, pode ser identificada como: os avessos ao riscos - tentam evitar a tomada de riscos; os tomadores de riscos - estão abertos as opções mais arriscadas; e os neutros aos riscos - intermediários entre os avessos e os tomadores de risco.A percepção aos riscos são contingências complexas, sempre aguardada como uma estratégia para mitigar a ocorrência danosa e prejudicial à produção agropecuária.

O tempo não espera por decisões tardias aos riscos na produção agropecuária. Não se toleram as travas protegidas por artefatos burocráticos e interesses seletivos de influentes corporações. A velocidade das mudanças no mundo globalizado é oportunista, acontece em tempo real e muitas delas são invisíveis aos olhos dos desqualificados. De imediato, urge oportunizar a gestão integrada de riscos no interior das políticas de produção agropecuária. Adequar os processos de articulação e governança entre os agentes privados e o Estado, incluindo os diferentes níveis de governo. A persistência de aspectos desprovidos de visão sistêmica e estratégica para alavancar a produção agropecuária, pode transformar os avanços até então alcançados, em prejuízos incalculáveis e até irreversíveis numa arena de gigantes digladiadores por lucros e mercados, onde não cabem ambiguidades, descasos e inoperâncias.

Pedro Abel Vieira Junior e Manoel Moacir Costa Macêdo são engenheiros agrônomos

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