AMAZÔNIA: GRANDEZA E COMPLEXIDADE

Manoel Moacir Costa Macêdo e Pedro Abel Vieira

Manoel Moacir, 02 de Julho, 2020

Escrever sobre a Amazônia, é assumir dúvidas, em face de sua grandeza e complexidade. Os discursos, escritos, e retóricas, simplificam os seus valores, desconhecem a sua imensidão. A visível importância econômica e estratégica, ultrapassa os marcos nacionais para os compromissos planetários. Ela esconde riquezas e soberania no ar, solo, subsolo, história, gente, mitos e mistérios. O futuro da Amazônia, é maior que a soma do passado com o presente. Tudo nesse magistral bioma é superlativo: potencialidades e venturas, problemas e soluções.

A sua biodiversidade é desconhecida em plenitude. O interior material e imaterial carece de identificação. As formas nativas de viver e trabalhar são precariamente conhecidas. Nela domina o supremo e o superior. O estado-da-arte, não dispõe de mecanismos de intervenção nas suas potencialidades. A sua grandeza ultrapassa os perceptíveis conteúdos, para penetrar no interior do reino animal, vegetal, mineral e até no “sobrenatural” das magias dos povos tradicionais. É a maior riqueza natural do Brasil.

A área física da região Norte do Brasil representa 4,2 milhões de km2, 49,3% do território nacional. Alberga a maior biodiversidade do planeta e uma relevante bacia hidrográfica de água doce. A floresta produz imensa quantidade de água, indispensável à regulação do clima global. Os “rios voadores”, formados por massas de ar carregadas de vapor de água gerados pela evapotranspiração na Amazônia, carregam a umidade para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, que afeta o regime de chuvas e o clima dessas regiões. A área desmatada, acumula em torno de 800 mil km², correspondente a 18% do bioma, enquanto a área protegida na forma de unidades de conservação, corresponde a 1,17 milhão de km², 34% do bioma amazônico. Estima-se que apenas 30% das áreas estão regularizadas do ponto de vista fundiário. Um ambiente de grilagem, morte, e extermínio de populações fragilizadas.

Por tamanha riqueza, ainda a ser precificada pelo império financeiro, a Amazônia continua pobre, desigual, e cobiçada. Os 772 municípios da Amazônia contribuem atualmente com apenas 8% do PIB brasileiro, um avanço em relação aos 5,8% registrados vinte anos atrás. A renda média das famílias amazônidas é 20% menor que a média nacional, e cerca de 50% dos municípios, a economia é dependente do setor público. O nível de desemprego é elevado. Os indicadores de saúde, educação e renda são sofríveis, quando comparados às outras regiões do Brasil.

A Amazônia em sua essência, é maior do que tudo isso. Ela acomoda os movimentos das mudanças climáticas na Terra, e a vida de populações desconhecidas em suas variantes sociológicas, antropológicas, econômicas e históricas, entre outras autóctones identidades. A Amazônia, chora as angústias perante o desmoronamento dos cuidados ambientais e das “grandezas, mitos, e mistérios”. O valor imaterial da Amazônia, não foi dominado em suas especificidades. O natural e histórico modo de produção, está sendo substituído por uma equação produtivista ávida por lucros no curto prazo. Sem a “floresta de pé”, os solos são pobres e ácidos. “A produtividade econômica da floresta é significativa, pelo fato dela existir”. A Amazônia representa o coração da soberania nacional. “Desenvolvimento sustentável e soberania são indissociáveis”.

Não se defende, a preservação da Amazônia como um “museu ecológico”, pois nela vivem e trabalham pessoas, em sua maioria pobre e carente dos valores elementares da civilização. Existe na Amazônia uma diversidade de sistemas de produção, desde o extrativismo, cultivos de subsistência, pesca artesanal, até as culturas perenes, pecuária, agricultura mecanizada, hortaliças, sistemas agroflorestais e reflorestamento. Iniciativas exitosas como a produção de café e cacau em Rondônia, de abacaxi e cacau no Pará, criação de peixes no Amazonas, e produção de farinhas no Acre. O dendê e o açaí também são importantes. A integração entre Lavoura, Pecuária e Floresta - ILPF, na recuperação de áreas ocupadas com pastagens. Geopolítica, importância econômica, social e ambiental de um bioma de tal magnitude, não se alinha com experiências, planos e conselhos, sob pressões extemporâneas internas e externas. Exige um consenso político de desenvolvimento sustentável. “O fracasso na Amazônia, pode significar o fracasso da Nação, e o êxito, um passo na direção da civilização brasileira”.

Interferir na Amazônia de forma desarmonizada, extemporânea e de “fora para dentro”, é mais que destruir a floresta, a fauna, as fragilizadas populações, plantar e criar “commodities globalizadas” de baixo valor agregado. Significa de maneira irreversível, queimar a história, mistérios, abundância e solapar a soberania de uma suprema, bela e frágil “Catedral de Cristais”, em permanente adoração “dentro e fora” do Brasil.

Por: Manoel Moacir Costa Macêdo e Pedro Abel Vieira,                                                                                              Engenheiros Agrônomos

O que você está buscando?