O PRESÉPIO DE DONA DEZI

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 16 de Novembro, 2019 - Atualizado em 16 de Novembro, 2019


O PRESÉPIO DE DONA DEZI

Quando dezembro chegava, batia forte o encanto, que vinha junto ao som das harpas e das liras, nos anúncios comerciais de Feliz Natal e de um Próspero Ano Novo. Algumas fachadas se enfeitavam de festão verde, com bolas natalinas, dando um colorido especial à ocasião. A cidade se transformava.

Na roça, entretanto, tudo corria como sempre, sem luz, sem bolas, sem músicas, sem enfeites. A Natureza encarregava-se de mostrar seus mimos, após a primavera perfumada pelas flores. Apareciam algumas frutas... era a garantia de que o Natal naquele ano seria promissor. Ter-se-ia comida com fartura, à semelhança do período junino!

O contraste entre a simplicidade bucólica e os encantos natalinos da cidade se dava por conta da feirinha e do parque, com a onda, o carrossel, as barcas, as bancas de jogo e de comidas. Havia a Missa do Galo e o presépio da igreja de Santo Antônio e Almas. Especialmente, via-se a diferença com um toque mágico na Praça Fausto Cardoso: O Presépio de D. Dezi. Nele Cristo nascia e permanecia!

A cada dezembro, duas portas se abriam orgulhosamente para receber visitantes da Capital, do interior e da própria Serrana Bela, a fim de contemplar a arte da confeiteira, doceira e modista, Dona Dezi. Ela durante os dois meses anteriores se dedicava a montar o presépio, a cada ano, mais bonito, com uma novidade, com um mimo a mais: o céu estrelado; a gruta com os capins e os bichos milimetricamente expostos; as imagens sagradas; o córrego com a ponte; o casario por ela confeccionado em argila; o papel chumbo caprichosamente pintado e dobrado, para dar a ideia das montanhas rochosas; o verde das árvores e a grande criatividade com que dispunha outras figuras, para dar um tom artístico ao espetáculo anual.

Quem passava pela praça, com o fito de ir à feirinha de natal, tinha parada cativa no velho casarão de taipa, com três portas na frente. A primeira dava acesso à residência e as outras duas ao salão onde funcionou por muito tempo o ateliê da modista, da doceira, da confeiteira. Nos últimos anos, quando a idade já não mais permitia grandes esforços, o salão quedou-se reverente ante o brio do presépio e passou a ter essa única serventia.

Um dia, quando entrei pela primeira vez ao recinto do presépio, percebi que era muito mais bonito do que aquele que ficava na Matriz. Perguntei a minha mãe pela razão de ela fazer o presépio mais bonito do que o da paróquia. E a resposta foi: Capricho pela arte! Cheguei a imaginar que se tratava de concorrência... Mas não! Era apenas o gosto pessoal de propiciar aos pobres, aos ricos, aos da cidade ou aos da roça, aos conhecidos e aos desconhecidos o talento com que se pode adornar o doce Mistério que une a terra ao Céu.

Quando a tecnologia chegou, ouvia-se música sacra diante do presépio. “As meninas me mandaram do Rio de Janeiro, minha Filha! Não é uma beleza”? Além de ver, de sentir o espetáculo de uma artista plástica nata, ouvia-se a música, em especial, “Noite Feliz” orquestrada. Minha memória guardou a sete chaves aquelas cenas de uma senhora sentada com sua cunhada Gloria de Jeová conversando, sorrindo, enquanto os visitantes e admiradores do presépio entravam e saíam maravilhados, comentando, admirados: viu a luz piscando? E a água correndo por debaixo da ponte? E as luzes dentro das casinhas...

Em minha meninice, doido para comer um cachorro-quente e ávido por me divertir nas barcas de Patolinha, ficava dividido: permanecer um pouco mais naquele cenário encantador ou ceder aos instintos pueris e correr para a feirinha? Quando o coração se plenificava das maravilhas que o presépio de D. Dezi proporcionava, corria com meus irmãos para a empoeirada “Praça do campo” a fim de conseguir o lazer esperado o ano inteiro.

O Natal é mágico! D. Dezi era uma espécie de fada que, com um toque de condão, dava vida, luz, cores e sons ao Nascimento do Menino Jesus. O coração do Natal parecia estar ali, naquela casa humilde, mas cheia de paz, de amor e de ternura. Ternura! Talvez essa palavra seja a mais propícia a definir a vida e a pessoa de D. Dezi. Ela vivia sempre sorridente, com um semblante de paz. Sabia transmitir o amor – não apenas pela arte – mas pelo modo de ser e de agir. Era uma pessoa distinta, uma mulher meiga e doce!

D, Dezi se foi e, com ela, o seu presépio. Sua casa ficou triste e, tempos depois, desapareceu para dar lugar a edificação moderna. A praça se tornou moderna, com belos prédios, mas o brio do presépio de D. Dezi foi a estrela maior que deu vida, cores e encantos à Praça da Matriz. O Natal já não é o mesmo: Apagaram-se as luzes do presépio; não há córrego sob a ponte, nem as luzes piscam, nem casario iluminado... O Papel Chumbo rasgou-se e não se ouve mais Note Feliz! A Praça perdeu o encanto!

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