A TAPAGEM ( por Jerônimo Peixoto )

Jerônimo Nunes Peixoto, 14 de Março, 2020 - Atualizado em 14 de Março, 2020

A TAPAGEM

Nos idos de setenta do Século passado, as pessoas que viviam nos povoados eram muito carentes e, quando desejavam se casar, construíam, em mutirão, seus casebres, que eram feitos de pau a pique. Arrumava-se  um carpinteiro, para marcar a casa, delimitando os cômodos, em geral, uma cozinha, um ou dois quartos e a sala de estar, com um telheiro à frente. No Cajueiro, apenas Basto de Jerome e Tonho de Teodoro sabiam marcar o chão, estabelecendo o esquadro da futura habitação. Outros até se arriscavam, mas faziam cada presepada...

Aos domingos, pela manhã, reuniam-se duas ou três pessoas, para medirem e fincarem os tornos, a fim de que os esteios de canto e da cumeeira tivessem lugar definido para susterem o peso da edificação. Marcar a casa era trabalho específico e não era para qualquer um. Basto aprendera com seu velho pai; Tonho de Teodoro, com seu genitor. A marcação terminava antes do meio dia. Não era tão demorada. Mas, se o cavador de buracos não fizesse bem seu encargo, a casa estaria fora do esquadro e os passantes, ao virem, desdenhariam de quem fez a marcação. Daí a necessidade de se permanecer no local, até que os seis buracos estivessem prontos. Desses possíveis erros surgiu a expressão: “Eu não vou numa marcação dessa”.

No domingo seguinte, seria a vez de enfiar os esteios, tirar o prumo e alinhá-los, de forma que o esquadro ficasse garantido. Casa fora de esquadro é casa fora de forma, além de feia, não tem sustança própria. Enquanto uns ficavam alinhando os esteios, outros saiam, de casa em casa, para convidar os vizinhos e amigos para o batalhão da tapagem, na sexta-feira seguinte, a partir das quatorze horas, ou mesmo, das oito da manhã, a depender do tamanho da nova residência.

Levantados os esteios, colocadas as travessas, procedia-se à construção do telhado. As ripas e os caibros eram do próprio pasto; quando não, comprados aos vizinhos ou até recebidos de graça, conforme à necessidade do novo morador. As telhas eram quase sempre aproveitadas de uma casa antiga que já não servia de morada alguma. Com as delimitações de portas e janelas, era a vez dos enchimentos, estacas compridas de madeira que ficavam presas às travessas, para darem sustentação às paredes. Em seguida, vinham as varas, amarradas aos enchimentos, com cipó de Imbé, ou com arames, a depender do costume do lugar e das condições do proprietário.

No ínterim entre a segunda e a sexta-feira, a edificação se mostrava aos passantes como mais uma candidata a abrigar uma família que se estava constituindo ou que viera de fora. A lida era desafiadora. Era preciso deixar tudo pronto para a cerimônia da tapagem, quando o ajuntamento seria grande.

Duas pessoas fortes, em geral dois homens novos, debruçavam-se sobre o aloque, para preparar o barro. Cavar, amassar, por um pouco de cinzas para a liga, colocar água na medida certa. O aloque, além de ser um serviço muito pesado, era exigente sob o ponto  de vista técnico. Por vezes, o barro era cavado bem longe e trazido em banguês, para ser amassado e mexido bem próximo ao local da tapagem. Quando isso ocorria, os homens traziam os banguês com o barro e as mulheres, as latas d’água para molhar o barro.

À hora acertada, reuniam-se homens e mulheres, num verdadeiro ritual litúrgico: o cantador da bandeira era o primeiro a chegar, com uma bandeira de papel celofane às costas, meio vestido de palhaço, para fazer os presentes sorrirem muito. Depois de umas boas talagadas de pinga, danava-se a dizer besteiras, coisas até indecorosas, que eram permitidas somente naquelas quadras de tapagem. As mulheres faziam o pirão de pato, peru, capão, até de bode. Os adolescentes faziam bolos de barro e as mulheres e os homens cuidavam de tapar, deixando as paredes bem-feitas e próprias para a habitação. Quando surgia um clima mais íntimo, costumava-se jogar barro nas moças e receber delas a paga...

Além do cantador da bandeira, havia os trovadores, que faziam versos engraçados, dando conta dos causos principais que ocorreram no raio de uma légua ou mais. Causos tristes, como infidelidades, ruínas, bebedeiras, namoros, mortes, casamentos arranjados, além de se mencionar os apelidos mais cabeludos. Seu Jerome era bom nessa arte de improvisar. Por vezes, era o único a animar a turma, com os versos meio pevertidos.

Era uma mistura engenhosa, que não raramente redundava em brigas, pois cachaça, apelidos e vida alheia, sendo disputados a versos, acabavam por desagradar a alguém. Havia os curiosos e igualmente preguiçosos que só apareciam para comer e beber de graça, além de encrencar com quem estava trabalhando. Mas nunca houve desavenças duradoras. Bastava passar o efeito da caninha, que a paz já estava presente. Eram outros tempos!

Antes do pôr do sol, a casa estava pronta, faltando apenas as portas e janelas, tarefa do carpinteiro para a semana vindoura. Quanto mais o dono tinha pressa em carregar a noiva, mais atiçava o carpinteiro a se aviar com o serviço. No Cajueiro, houve moça que se antecipou e foi morar com seu noivo, em casa sem janelas e portas. Mas isso foi um acontecido.

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