CARNAVAL, A MAIS PROFANA DAS FESTAS

Carlos Braz, 09 de Fevereiro, 2021 - Atualizado em 09 de Fevereiro, 2021

 

CARNAVAL, A MAIS PROFANA DAS FESTAS

 Por Carlos Braz

 

Esse ano não vai ser igual aquele que passou. Assim diz o verso de uma famosa canção entoada em todo Brasil pelos amantes da mais profana das festas, o carnaval.

O momento atual, em que enfrentamos a pior pandemia da história da humanidade, não permitem que soem os clarins e rufem os tambores, ante os mais de 250.000 brasileiros que perderam suas vidas. Mesmo assim, ocorrerão festejos, restritos ao interior das residências, chácaras e condomínios residenciais. Os demônios enclausurados nos recantos mais remotos da consciência estarão atentos. Preparam-se para emergirem do mundo das trevas e se alojarem na mente dos que não respeitam à vida, e irão às ruas, desrespeitando as regras impostas pelas autoridades sanitárias, colocando em risco a vida de amigos e parentes.

 Sem confetes e serpentinas, só nos resta voltar no tempo e relembrar da   fuzarca, ansiosos pelo momento futuro, em que estaremos imunes ao vírus mortal, e poderemos desfrutar da metamorfose inversora de papéis, da violação dos códigos vigentes e da quebra das fronteiras entre a folia e o pecado. E seremos tresloucados vampiros e impenitentes sedutores, vassalos do Rei Momo, senhor de um território dominado pela volúpia e luxúria.

É unanimidade entre os historiadores a origem dos festejos e o seu caráter transgressor. É uma miscelânea de festividades organizadas por diversos povos antigos, egípcios, gregos e romanos, entre outros, com o intuito de celebrar uma boa colheita.

Contudo, o protagonismo cultural romano aproxima o carnaval das saturnais, festejo dedicado ao deus da agricultura, Saturno. Com a supremacia do cristianismo durante a Idade Média a igreja católica mobilizou-se no sentido de interferir no período de realização dos festejos, oficializando sua realização quarenta dias antes da páscoa, a quaresma.

Nesse o período os homens refletiriam sobre os pecados cometidos e sobre o perdão, culminando com o páscoa, o renascer para uma nova vida.

 Nos dias atuais o carnaval é festejado em diversos países do mundo, contudo é no Brasil que o festejo assume ares de grandiosidade, quando a arte em puro êxtase, une-se a sensualidade natural da mulher brasileira.Com a grande extensão territorial do nosso país e cultura diferenciada entre as regiões a festa assume diversas facetas culturais, o que a torna ainda mais surpreendente.

Entrudo. É com essa denominação que nasce o carnaval brasileiro, introduzido pelas mãos dos colonizadores português. Encontram-se relatos sobre o folguedo em um documento produzido em Portugal, no ano de 1252, no reinado de D. Afonso III. E sua prática também é encontrada com certa regularidade em outros escritos lusitanos, o que comprova sua existência como elemento da cultura desde a Idade Média. 

No Brasil, consistia em sair às ruas e participar de um combate com bexigas cheias de líquidos, farinha, limão de cheiro, pó ovos, enfim, tudo que promovesse um mela-mela generalizado. Tal costume se espalhou por toda a colônia e persistem até hoje em alguns lugares.

Com o tempo o entrudo passou a ser considerado incivilizado e deu lugar aos cordões e aos blocos, sendo a marchinha o ritmo soberano entre os anos 1920. A nossa herança africana e indígena não tarda a se manifestar pelos quatro cantos do país. O frevo e o maracatu se consolidam em Recife, no Rio de Janeiro brilham as escolas de samba com suas mulatas, passistas e percussão envolvente, e na Bahia o trio elétrico, os afoxés, o samba de roda e a revolucionária axé music.

Em pouco mais de 30 anos o carnaval se transformou em uma indústria que movimenta bilhões de reais gerando emprego e renda, consolidando-se como a maior festa popular do planeta. 

 Em Aracaju o carnaval ganha as ruas com o prestígio de festa popular e democrática no ano de 1894, com a iniciativa do tenente Henrique Silva, militar à serviço do Batalhão 33, futuro 28º Batalhão de Caçadores.

Reunindo sob seu comando músicos de várias origens, saiu às ruas arenosas de então com um pequeno grupo de brincantes. Desde então a festa evoluiu, e ano após anos foram criadas diversas agremiações exclusivamente carnavalescas, e oficializado o desfile de blocos e carros alegóricos que ocorriam em frente ao Palácio do Governo, enquanto, nas ruas adjacentes decoradas em tons coloridos, uma multidão de fantasiados, armados com confetes serpentinas e lanças perfume divertiam-se até as primeiras horas da manhã.

Nesse contexto surge o primeiro cronista social dedicado a cobrir os bailes nos clubes da cidade, à serviço do Sergipe Jornal: José Eugenio de Jesus à serviço do Sergipe Jornal. O mesmo que posteriormente se destacaria como comentarista esportivo, função que exerceu até os 94 anos de idade.

O inocente entrudo ficou no passado. O mundo mudou e com ele as convenções sociais. O conceito de cidadania, baseado em direitos e deveres garantidos pelo Estado permitiu mudanças no comportamento da sociedade, contempladas com   a liberdade sexual, de gênero e religião, a pílula anticoncepcional, a liberdade de expressão e a inexistência da censura, inseriu na folia um elementos que aumentaram a temperatura e o caráter libidinoso da festança, turbinado pela nudez feminina, que trouxe a reboque o assédio sexual.

A crítica social, o deboche às instituições e aos maus governantes adicionou o ingrediente político entre os foliões. Contudo, o álcool em excesso e outras drogas continuam a atiçar os mais tímidos, e a induzir comportamentos agressivos que quebram a irreverencia da maior festa popular do nosso país.

 

 

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