Rafael dos Penicos. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 01 de Junho, 2021

Ricos e pobres, não importava, todos possuíam um penico em casa.

Os sanitários (WC), com água corrente, só existiam em casa de rico.

Na casa dos pobres eram as latrinas, no fundo do quintal. Ninguém era doido de acordar na madrugada e sair de casa, para tomar vento. Passava a congestão na hora. O vento pelas costas era fatal.

No Beco Novo, o vento matou muita gente de repente.

O atestado de óbito registrava como causa: “Passou o Vento”. Não existia IML (Instituto Médico Legal) nem SVO (Serviço de Verificação de Óbitos), para contestar o laudo.

O jeito era recorrer ao penico, sempre pronto para as emergências intestinais.

O urinol poderia ser de barro ou de fina louça, rústico ou decorado, o penico era indispensável. Fico imaginando o desconforto de sentar-se num trono tão baixo e pequeno. Como era feito o asseio depois que se soltava o “barro”, em uma grande cagada?

O penico era carinhosamente tratado como vaso-da-noite, cagatório, bispote, bacio, urinol, comadre, camareiro, cuba, cabungo e sei lá mais o quê.

Em Itabaiana, Seu Rafael passava de rua em rua, consertando panelas de estanho. Para aproveitar a viagem, consertava também os penicos furados.

Rafael nas horas vagas era um artista, brincante de mamulengo. Foi o primeiro espetáculo que assisti: os fantoches de Rafael dos Penicos, encantamento que ficou na memória.

Rafael dos Penicos, ventríloquo talentoso, personalidade de minha infância.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

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