Sua Excelência... (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 19 de Janeiro, 2022 - Atualizado em 19 de Janeiro, 2022

 

Existe um declínio da representação política. “Ele não me representa” virou um clichê. E a quem eles representam? A bala, a bíblia e o boi?

O que levou a essa descrença? É da natureza do Poder ou são as práticas deformadas? Mesmo os mais puros e bem-intencionados, quando se elegem com um discurso revolucionário, exercem os mandatos com uma prática resignada.

Se elegem com o discurso da reforma agrária e exercem o mandato distribuindo cisternas.

O velho Lenin, denominava esse comportamento de forma depreciativa: cretinismo parlamentar.

Não é exagero. O exercício do poder no Brasil cria de fato privilégios institucionais. Reais e simbólicos.

O cargo transforma o ocupante em excelência, independente de virtudes pessoais. E ser excelência não é pouco.

Excelência é quem possui a sabedoria e conhece os caminhos.

"Celência” deriva de celestial, divino. A origem é bíblica.

Quando Salomão assumiu o seu reinado, para bem governar, pediu a Deus sabedoria. Os líderes políticos acreditam que essa sabedoria foi extensiva a todos que exercem o poder.

Excelência é o sublime, o soberano, a perfeição, o chefe, o Duce, o Corifeu e o Fuehrer.

Acontece que Deus, além da sabedoria, presenteou Salomão com riqueza, poder e glória. Os políticos sabem disso e também se intitulam herdeiros dessas vantagens.

Os ganhadores das eleições são considerados os “eleitos”, mantendo a linguagem religiosa. “Muitos são os convidados e poucos os eleitos.”

Os eleitos acreditam nessa distinção.

No Folclore brasileiro, “excelência” são cantos entoados aos pés dos defuntos, para facilitar a sua entrada no céu. No folclore, excelência é uma reza de defunto de herança portuguesa.

Em política, excelência é um passaporte de superioridade, de grandeza, de soberania, de infalibilidade. Excelência é exceção, prerrogativas, impunidade e mimos.

A sociedade brasileira vive uma assombração: o desmonte do que nos restava de civilidade.

A análise acima não nega a política, nem a sua necessidade para resolver os conflitos. Ao contrário, precisamos de mais política e mais envolvimento.

Os vícios do exercício do poder se resolvem com mais fiscalização e novas formas de representação.

A perda de legitimidade da representação parlamentar é um fenômeno universal.

No Brasil, essa decadência foi acentuada pela criminalização dos processos eleitorais, decorrentes da ação do poder judiciário, da imprensa, do poder econômico e da reduzida consciência democrática da população.

O político tornou-se um suspeito nato, mesmo sem qualquer denúncia. O grave é que não existem saídas fora da política.

Talvez a representação parlamentar, tenha mesmo perdido a legitimidade e, de fato, não representem a sociedade.

Esse é um impasse de difícil solução.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

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