SEM RENDIMENTO por Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 23 de Julho, 2021 - Atualizado em 23 de Julho, 2021


Da vida universitária na Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia - EAUFBA, a memória arquivou as boas recordações. Seletividade benéfica. Não é saudável para corpo e o espírito os registros tóxicos, eles carregam ódio, sadismo e rancor. Ressentimentos são comportamentos patológicos que tornam os humanos inferiores e insensíveis.

A história é acreditada como ciência, pelos registros dos fatos passados para entender o presente e projetar o futuro. A partir do Século XVI, o Iluminismo clareou os caminhos da humanidade. A barbárie foi derrotada. Os eventos históricos, carregam a fragilidade da generalização, mas possuem a força em esmiuçar os acontecimentos. Cantou o poeta “recordar é viver” e escreveu o maior da língua portuguesa “navegar é preciso, viver não é preciso”. Aprecio ambos: “viver é preciso e recordar também”. Assim, são as reminiscências do curso de agronomia na UFBA na década de setenta. No dizer do historiador Eric Hobsbawm, a década que antecedeu o “desmoronamento do mundo e a queda dos sistemas institucionais”.

Estávamos fazendo história e não sabíamos. Recolhidos no campus da UFBA em Cruz das Almas na Bahia, concentrados em disciplinas lineares e positivistas do currículo acadêmico de agronomia, na fase dura da ditadura militar. Conhecimento cartesiano, restrições de opinião e de participação política. Naquela época haviam as cotas para os proprietários rurais e familiares nos cursos das ciências agrárias das universidades públicas e federais, a chamada “Lei do Boi”. Uma generosidade aos nascidos sob as bênçãos da desigualdade, da propriedade rural e dos latifúndios.

Lembro de uma passagem na disciplina “Máquinas Agrícolas”, conhecimento difundido para a consolidação do capitalismo no campo brasileiro. Tecnologia intensiva em capital e liberadora de mão-de-obra. Aumentar a produção e produtividade das lavouras e criações, liberar a mão-de-obra rural e produzir alimentos baratos para o proletariado urbano na industrialização nascente. As prescrições da “Revolução Verde”. Para o professor José Graziano da Silva, uma “modernização dolorosa”, para outros uma “modernização conservadora”.

Voltando ao curso. O jovem professor da referida disciplina, Djael Dias da Silva, ainda entre nós, substituto do desencarnado mestre Bráulio Seixas, ministrou um trabalho sobre “o desempenho do trator nos tratos culturais”. Escolhi o caso da “cultura do coqueiro”. Prenúncio do futuro profissional, onde trabalhei numa unidade de pesquisa da EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, possuidora de relevante portfólio de pesquisa nesse cultivo. Uma tarefa simples, a comparação entre custo e benefício da máquina versus o arado de aiveca a tração humana e animal.

Trabalho passado e prazo de entrega definido. Disciplinado e diligente, cumprir a tarefa em tempo hábil. Na manhã do dia de entrega, apareceu no meu quarto no campus, o colega Antônio Flores, o “Tom Tom”. Uma visita inusitada. Afeiçoado, cabelos longos, voz e violão afinados e motociclista de uma majestosa máquina. Residia numa república de estudantes na cidade. Apressado, solicitou ajuda sobre o referido trabalho, ainda por fazer. Temendo ser qualificado como “p. de bosta”, marca que grudava no tempo do curso, emprestei o trabalho pronto e acabado, com as recomendações de usar como orientação e não copiar. Poucas horas antes do prazo final, “Tom Tom” devolveu o trabalho com um “pálido obrigado”. A surpresa estava porvir. No dia da entrega dos resultados, eis a nota: “SR [Sem Rendimento]”, ou seja “Zero”. As avaliações seguiam a escala: “S [Superior], MS [Médio Superior], M [Médio], MI [Médio Inferior], I [Inferior] e SR [Sem Rendimento]”. Procurei o professor, questionando humildemente as razões dessa incomum nota. Como resposta, disse ele: o “SR” foi a nota do desonesto comportamento. Os trabalhos eram iguais de início ao fim. Os mesmos cálculos, itens, comentários, capa e contra capa. Caso existisse a “Xerox”, seria uma fotocópia.

Retornei abatido ao quarto onde fui consolado pelos colegas Domingo Haroldo e Bival da Conceição. Triste pelo “SR”. Esforço perdido. Provável reprovação na disciplina e restrição à conclusão do curso no tempo regular. Ao final do semestre, o alívio pelo resultado das três avaliações na citada disciplina: “M [Médio]”, a nota mínima para “passar”, em face de dois “S” nas avaliações anteriores. “Tom Tom” continuou cantando as suas belas toadas e encantando as nativas com a sua vistosa máquina. Os fatos reais não foram revelados, pois seria traição e “dedo-duro” na moral de estudante.

Manoel Moacir Costa Macêdo, é engenheiro agrônomo.

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