A COP 26 E A AGROPECUÁRIA por Clayton Campagnolla e Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 17 de Dezembro, 2021 - Atualizado em 17 de Dezembro, 2021

 

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC publicado recentemente, mostrou que as mudanças climáticas causadas pelos seres humanos são irrefutáveis, irreversíveis e irão agravar nos próximos anos, caso ações relevantes e imediatas não sejam tomadas.  As mudanças recentes no clima não têm precedentes na nossa história. Os últimos oito anos foram os mais quentes do planeta.

A humanidade está sob ameaças de sobrevivência. Não são as insanas guerras e conflitos entre potências nucleares, mas os conflitos entre os humanos e a natureza. Os ataques ao equilíbrio natural da vida em suas diversas dimensões são as causas das intempéries. O aquecimento global tem aumentado os furacões, tsunamis, enchentes, secas e desertificações, causando perdas de produção que, aliadas à pobreza aprofundam a fome e a insegurança alimentar.

O alerta é definitivo. Ou alteramos a trajetória da “produção ao consumo” de bens e mercadorias, ou estaremos na rota do fracasso do atual modelo de desenvolvimento das criaturas terrenas. A Terra está clamando por socorro. Os sinais e apelos são frequentes e não são recentes. O tempo é agora. Não existirá o futuro em tais contingências. A COP 26 - Conferência entre as Partes, da Organização das Nações Unidas - ONU para a Mudança Climática, realizada em Glasgow, na Escócia, de 31 de outubro a 12 de novembro, foi uma iniciativa incomum no multilateralismo global. Continuidade da COP 21, realizada em Paris em 2015, quando 195 países e a União Europeia se comprometeram “a deter o aumento da temperatura do planeta abaixo dos 2ºC, e ajudar economicamente os países mais vulneráveis ao aquecimento global”.

Quanto aos principais resultados da COP 26,apesar de promissores, somente o tempo dirá de sua efetividade além dos discursos e retóricas da diplomacia internacional. Entre eles, destacam-se às ameaças à produção agropecuária. De um lado, a provável insuficiência na produção e oferta de alimentos para todos os humanos, e de outro, a fome que limita a compra de comida pela persistente desigualdade social dos pobres. A insegurança alimentar no Brasil com ênfase no Nordeste, atinge quase metade dos brasileiros e brasileiros. Dez milhões de conterrâneos estão em fome aguda. Entre todos os setores da economia, a agropecuária é a maior emissor de gases de efeito estufa - GEEna atmosfera, sendo responsável por 28% das emissões. Contribuiu também em grande proporção para os 10.476 km2 de florestas que foram desmatados no corrente ano.

Caso as principais recomendações da COP 26não sejam acolhidas imediatamente pelo concerto das Nações, principalmente pelos países ricos e industrializados, a exemplo de políticas públicas que mantenham a meta de aquecimento de 1,5ºC até o final do século, as consequências na produção agropecuária serão desastrosas. A tragédia ultrapassará a atual geração para as futuras e algumas restrições serão irreversíveis. Os cientistas lastreados em investigações, advertem que os impactos na natureza irão alterar a distribuição e extinção geográfica das espécies; queda na produtividade de lavouras e criações devido à deficiência hídrica, frio, seca e desertificação; uma maior incidência de novas pragas e doenças; e a perda de biodiversidade e de serviços ambientais.

Estimativas recentes mostram que das 27 culturas alimentares mais consumidas em 177 países, um terço das áreas onde são produzidas serão improdutivas até o final do século. Para o caso do Brasil, similares estimativas apontam que 17% da produção de alimentos e 27% da pecuária estariam ameaçadas. Num cenário, onde a temperatura de 3°C predomine no planeta, 6% da produção agrícola e 22% da pecuária brasileira estariam ameaçadas. Quiçá um chamado definitivo à humanidade, por um novo paradigma de produzir, consumir e bem viver que está por vir.

 

Clayton Campagnolla e Manoel Moacir Costa Macêdo, são engenheiros agrônomos.

 

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