Domingos Pascoal entrevista Antônio Saracura

Domingos Pascoal, 04 de Março, 2021

(Domingos Pascoal): Quem é Antônio Francisco de Jesus?

(Saracura): É Antônio Saracura, escritor tardio (publiquei o primeiro livro com 63 anos de idade) quando senti necessidade de contar as histórias que ouvi de minha mãe desde pequeno; as histórias que ouvi das pessoas com as quais convivi; as histórias de minha trajetória, a qual não foi fácil; e as histórias que minha fantasia criou por conta própria.

(Domingos Pascoal): Qual a sua origem. Fale também de sua trajetória e de como se preparou para ser o que é hoje?

(Saracura): Sou filho de agricultores de um povoado de Itabaiana Sergipe: Terra Vermelha. Por um acaso, entrei no seminário e consegui estudar e, depois, concluir o curso superior, algo naturalmente não destinado ao meu povo. Enfrentei a vida com alegria, os desafios com destemor, e muita coragem e otimismo nas empreitadas que surgiram à minha frente. E sem perceber, fui sendo moldado para ser quem sou, inclusive ser escritor.

(Domingos Pascoal):  Durante seu aprendizado existiam vozes dissonantes? Poderia citar exemplos de como as neutralizou.

(Saracura): Sempre há os que menosprezam; os que ignoram quando poderiam se aliar. Mas eles não foram nada ante a minha vontade de vencer na vida, de aproveitar a oportunidade que Deus me deu para estudar, para trabalhar, para mostrar o valor que eu achava que possuía.

(Domingos Pascoal): Como você se tornou um escritor?

(Saracura): Sempre estive, desde menino, envolvido com livros. Meu avô materno tinha um baú de cordéis que lia para os netos e para quem aparecesse. Muitos o discriminavam por isso. Depois, no seminário, um local culto, aprendi a ler, a escrever muito e a registrar fatos organizados. Depois a vida me jogou em um jornal onde pude praticar a escrita exaustivamente. Nessa fase já sonhava em um dia em ser escritor publicar livros que encantassem, como alguns que lia.

Após trabalhar em área técnica por 35 anos, agora aposentado, vi-me diante de dezenas de cadernos cheios de anotações com fatos, sonhos, projetos, contos, romances inconclusos e muita poesia. E dispunha então de tempo de sobra; e havia a consciência de que eu deveria tratar aqueles dados e publicar livros, ou meus herdeiros fariam uma fogueira quando eu me fosse, nem ligariam para o valor que eu achava que as anotações possuíam.
Então comecei a organizar meu primeiro livro, certo de que cumpria uma missão como as anteriores que tive na vida; era mais um desafio que me cabia vencer. Estava resolvido ou dilema: ser escritor (publicar livros) ou acabar a vida jogando gamão ou buraco em clubes de idosos ou driblando a cirrose ou diabetes. Renasci para uma nova vida cheia de encantos, tão espetacular como a minha vida anterior, se não mais até. Mas tive muita dúvida depois que o livro ficou pronto. Valia a pena publicar a obra. Procurei velhos amigos do tempo de jornal, queria que avaliassem meu trabalho. Um deles, Luiz Antônio Barreto, devolveu-me a “boneca”, nem abriu e falou: “Somente você pode sentir o valor de sua obra. Só você pode rasgar ou publicar. Não aceite julgamento, palpite. Resolva por si.”

(Domingos Pascoal):   Fale um pouco de como produz sua literatura.

(Saracura): A minha produção literária consiste em compulsar minhas anotações, vasculhar minha memória, avaliar a significância do fato recuperado e o escrever. Mesmo que eu vivesse cem anos, não daria conta de minerar, organizar, transformar em textos literários tudo que anda pela minha cabeça e ao meu redor. Então escrevo e busco aprimorar a técnica da escrita (que apreendi nos bons livros que li) para dizer muito mais e melhor dito nesse pouco tempo que me sobra de vida, nesses poucos livros que conseguirei publicar.

(Domingos Pascoal): Qual sua obra literária até agora?

(Saracura): Até agora publiquei sete livros e os tenho disponíveis. Quando um se esgota, providencio a reedição. Enquanto eu estiver vivo, eles também estarão, pois sei que depois que eu morrer, dificilmente (a exemplo de outros bons livros) poderão ser comprados nas livrarias. O primeiro saiu em 2008 e está na quinta edição: “Os Tabaréus do Sítio Saracura”, que é um romance de costumes Em 2011 lancei dois livros. “Meninos que não queriam ser Padres”, que está na segunda edição, é também um romance de costumes. “Minha Querida Aracaju Aflita” (também na segunda edição) são crônicas do dia à dia revelando a cidade de Aracaju (momentos, manias e lugares). Em cada Bienal, lancei um novo livro: em 2013, “Tambores da terra Vermelha” (está na segunda edição) e são contos memorialistas, de costumes. Em 2015, lancei “Os Ferreiros”, contos seguindo a mesma linha de “Tambores”. Em 2017, lancei “Os Curadores de Cobra e de Gente”, versos tipo cordel, cantando os heróis com os quais convivi ou que queria ter convivido com eles. Em 2019, lancei o romance de costumes narrando a epopeia de alguns tabaréus dos sítios de Itabaiana, desbravando São Paulo, Mato Grosso e Paraná: “Pássaros do Entardecer”.

(Domingos Pascoal): Você poderia eleger e falar um pouco sobre mudanças que você teve que fazer para chegar onde você está?

(Saracura): Escrever é, para mim, uma atividade de rotina, como foi desenvolver sistemas, como foi capinar mato nas malhadas da Terra Vermelha. E é, como as outras, uma atividade árdua, exige metodologia, determinação, abnegação... Além de silenciosa e solitária ao que já me acostumara com a análise de sistemas à qual dediquei a maior parte de minha vida.
O que preciso é combater a preguiça, o comodismo, que a idade e os costumes me dão (é fato comum) para buscar as palavras, formar pensamentos, cria imagens vivas que encantem.
Assumindo ser escritor, precisei, entretanto, mudar meu jeito de me relacionar com a sociedade. Joguei fora a timidez e, com ousadia, entrei firme divulgação, participando e mesmo criando movimentos lítero-culturais.

(Domingos Pascoal): Fale um pouco sobre suas realizações como líder e como criador de movimentos envolvendo a produção literária: feiras, livrarias.

(Saracura): Todo o meu foco é criar uma literatura digna para minha terra (Terra Vermelha, Itabaiana, Sergipe, Brasil e o mundo).
E escrever apenas, não e suficiente. Preciso criar mercado para os livros. Assim como tive chance na vida de ler muito e escrever, tento retribuir essa glória que Deus me deu, criando ou participando projetos que incentivem as pessoas a lerem e a escreverem. Para que elas sintam a alegria que eu sinto fazendo isso. Como se fosse uma vingança boa: Já que aconteceu comigo, busco que aconteça com os outros.
Por isso estou em toda atividade cultural que alcanço. Tenho sido companheiro do semeador Domingos Pascoal de Melo nessa cruzada para organizar núcleos de saberes nos municípios que são as academias literárias, muitas delas em plena atividade; participo da organização da Bienal do Livro de Itabaiana já realizada a quinta edição; lidero o projeto “O Escritor na Livraria” que promove nas livrarias de Aracaju lançamentos contínuos e intermináveis de livros; “O Escritor vai à Escola” participando de eventos estudantis incentivando a leitura e a escrita; entre outros.

(Domingos Pascoal):  Mande uma mensagem para os jovens que querem escrever, vencer na vida.

(Saracura): Enfrente os desafios com otimismo e determinação. Você pode vencer como escritor pois até um tabaréu amarelo e broco (eu no caso) conseguiu. Escreva porque precisa muito contar a história. E só o faça se sentir conforto em fazer. E só publique se avaliar que fez o melhor que pôde sem se poupar. E porque sua escrita tem utilidade, pode mudar vidas para melhor. Apenas você precisa ter certeza disso. Os outros não contam por enquanto
Aracaju, 25 de fevereiro de 2021).

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