Fio da Peste (Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 17 de Março, 2020 - Atualizado em 17 de Março, 2020

 


A Fome, as Guerras e as Pestes são os três maiores flagelos da humanidade. A Peste bubônica (transmitida pela pulga) deixou sequelas indeléveis. Peste virou nome de todas as epidemias, que dizimaram populações.

O medo das Pestes é atávico, está em nosso inconsciente. Em Sergipe, usamos corruptelas de doenças pestilenciais como xingamento. Fio da peste! Cabrunco, gota serena, bexiguento, estopor balaio, e por aí vai.

Só recentemente as doenças crônicas tiveram esse prestígio. O usual “fio do canso” dos ceboleiros.

Em 1855, na fundação de Aracaju, Sergipe viveu a maior Peste da sua história. A pandemia de Cholera Morbus assolou o nosso estado. Em três meses, 40 mil mortos, numa população de 160 mil habitantes.

No século XIV, durante a Peste Bubônica na Europa, Giovanni Boccaccio ficou de quarentena em Florença, onde aproveitou para escrever Decameron (1356), a sua obra mais famosa.

“Triste e aborrecida é a penosa lembrança da mortandade que a peste causou a pouco tempo. A cada um, e a todos que a viram, ou souberam dela, ela prejudicou”. (Decameron)

“Digo, pois, que os anos da frutífera encarnação do Filho de Deus já haviam chegado ao número de 1348 quando, na insigne cidade de Florença, a mais bela de todas as da Itália, ocorreu uma peste mortífera, que – fosse ela fruto da ação dos corpos celestes, fosse ela enviada aos mortais pela justa ira de Deus pela correção de nossas obras iníquas.” Decameron.

A peste bubônica teve sua origem na Ásia central, onde existia em estado endêmico. Chegou ao ocidente pela rota da seda e atacou a Itália pelos portos. O comércio europeu havia se desenvolvido e os negociantes genoveses e venezianos partiam para negociar até os confins do Mar Negro.

O Papa Clemente IV descreveu com realismo a Peste bubônica do século XIV:

“No ano de Senhor, 1348, aconteceu sobre quase toda a superfície do globo uma tal mortandade que raramente se tinha conhecido semelhante. Os vivos, de fato, quase não conseguiam enterrar os mortos, ou os evitavam com horror.”

“Um terror tão grande tinha-se apoderado de quase todo o mundo, de tal maneira que no momento que aparecia em alguém uma úlcera ou um inchaço, geralmente embaixo da virília ou da axila, a vítima ficava privada de toda assistência, e mesmo abandonada por seus parentes.”

“O pai deixava o filho em seu leito, e o filho fazia o mesmo com o pai.”

O medo do desconhecido leva ao pânico. É o que precisamos evitar na atual Peste do novo coronavírus.

No início da década de 1960, Itabaiana quedou paralisada com medo de uma Peste. A teoria miasmática era bem aceita. Resolveram exumar o cadáver de um líder político. A notícia deixou a cidade em pânico. Quem ousaria desenterrar os mortos? E os risco para a saúde da população?

A primeira exumação em Itabaiana foi executada. A dificuldade foi encontrar um coveiro corajoso. Nelson Tocha e Miguel Patavá, os coveiros oficiais, não aceitaram. E agora? Pagava-se bem, mas ninguém queria correr o risco.

Encontraram Antonio Angico, acostumado a limpar fossa, que aceitou. Antes, ele tomou dois litros de casca de pau, acreditando que a cachaça corta tudo, até mordida de cobra.

Para encurtar a conversa, o médico e o legista que fizeram a exumação morreram em poucos dias. Só escapou Antonio Angico, por causa da cachaça.

Imaginem o medo da Peste que dominou a cidade por um bom tempo. Até hoje em Itabaiana, se alguém encontrar uma sepultura rachando, corre para avisar ao coveiro.

Antonio Samarone.

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