Omissão Conivente! (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 19 de Julho, 2020

Eu afirmo: o Governador e o Prefeito de Aracaju são omissos nas 1.111 mortes pela Peste, em Sergipe.

A Pandemia em Sergipe foi agravada pela omissão do Poder Público. Ações sanitárias básicas para o combate da Peste, não foram realizadas em Sergipe. Vamos a questão central.

Não são realizadas ações educativas para o uso adequado das máscaras e manutenção do distanciamento físico, nem ações de isolamento e vigilância dos infectados, como também, rastreamento dos contactantes e bloqueio dos focos de transmissão.

As ações educativas devem contar com a ampla participação da sociedade.

Em Aracaju, as ações de isolamento e vigilância podem ser realzadas pelas Equipes de Saúde da Rede Básica. Havendo necessidade, contratam-se e capacitam-se mais profissionais. Sem esses rastreadores epidemiológicos estamos perdidos.

Acompanhar os infectados é um fio que está sendo puxado e, se bem feito, normalmente são encontrados novos positivos que permitem rastrear a cadeia de transmissão.

Sem contar que as ações preventivas são de baixo custo. O Prefeito de Aracaju torrou o dinheiro federal num “Hospital de Campanha” duvidoso e em ações cosméticas, de baixo impacto epidemiológico.

Um exemplo dessa relação custo-benefício é fornecido por Pedro Gullón, da Sociedade Espanhola de Epidemiologia:

“Madri vai gastar cinquenta milhões em um hospital pandêmico, quando com apenas cinco milhões conseguiu contratar todos os rastreadores de que precisa e, graças a eles, certamente essa instalação não seria necessária”.

Essas ações necessitam de apoio laboratorial, permitindo uma testagem em massa, sem restrições, de acordo com a evolução da doença.

Um rastreador é um epidemiologista.

Após um resultado positivo de covid-19 relatado por um Centro de Saúde, é tarefa do rastreador ligar para os infectados e entrevistá-los, visando identificar os contatos íntimos durante os três ou quatro dias antes do início dos sintomas.

Os contatos íntimos testados positivos precisam ser isolados. Sem esse trabalho de acompanhamento local da doença, viveremos um tempo de medo e desconfiança

Após o pico da epidemia, quando a doença se tornar endêmica, esse cuidado da Saúde Pública permanecerá indispensável, para evitarmos surtos frequentes e repetidos.

Ajudaria muito na Vigilancia, o uso de um aplicativo móvel que localize automaticamente as pessoas que estiveram próximas a uma pessoa infectada.

Diz Helena Legido-Quigley, especialista em sistemas de saúde da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres: "Há meses que insistimos na necessidade de contratar rastreadores para acompanhar aqueles que estiveram em contato com uma pessoa infectada”.

Seguindo o exemplo da Alemanha, é necessário pelo menos um rastreador para cada 4.000 habitantes. Na Escócia, com uma população de 5,4 milhões, eles contrataram 2.000 rastreadores. A Espanha está contratando pelo menos 12.000 rastreadores.

O que eu estou propondo, o mundo já está fazendo.

Sem a vigilância dos infectados e comunicantes, viveremos dias de incertezas.

Miguel Hernán, professor de Epidemiologia da Universidade de Harvard, defende a obrigatoriedade da vigilância epidemiológica, isolamento dos infectados e o bloqueio dos focos nos Estado Unidos. O trabalho já começou a ser feito.

Não cito a China, para evitar alegações de que ela é outro mundo, outra realidade. Claro, mas as estratégias positivas deles podem ser adaptadas a realidade sergipana.

Não estou propondo novidades. É um tema batido e venho repetindo esse alerta há meses!

O boletim nº 4, do Comitê Científico do Nordeste, publicado no dia 16 de abril, já aconselhou a formação das Brigadas Emergenciais de Saúde que, entre outras ações, fariam o trabalho de isolamento dos infectados e vigilância dos comunicantes.

Existem evidências de que o uso generalizado e adequado de máscaras, somado ao distanciamento físico, lavagem correta das mãos, testes de rastreio, ações públicas de isolamento dos infectados e vigilância dos comunicantes, nos permitirá fazer com mais segurança, as coisas que tanto queremos e precisamos: voltar ao trabalho; reabrir escolas; ver amigos e familiares e reiniciar a nossa economia.

Vou continuar pregando no deserto.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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