Um São João sem liberdade. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 24 de Junho, 2020

Um São João triste, onde para se evitar aglomerações, as autoridades acabaram com a festa. Proibiram até o que não precisava. Até as “bandeirinhas”. O povo, com medo de ser responsabilizado, obedeceu franciscanamente.

Ontem o meu condomínio quedou-se logo cedo. Um silencio absoluto. Nenhuma radiola tocando. Nenhuma casa enfeitada. Nenhum chapéu de palha. A vida esmoreceu.

Uma Peste sem fim, onde não se enxerga saídas. As restrições soam como uma expiação de culpa, para acalmar a ira da morte. Tudo simbólico.

Cometemos um erro perigoso. Delegamos poderes imperiais as autoridades, com a justificativa da necessidade de enfrentarmos a Peste. O medo nos tirou a razão. Essa gente não tem compromissos com a sociedade.

Muitos estão se aproveitando do cheque em branco, dado pelo estado de emergência, e estão se lambuzando. O Rio de janeiro não está sozinho!

Renunciamos à liberdade por uma segurança que não veio. Pelo contrário, estamos cada vez mais inseguros. O Poder Público em Sergipe não está à altura da crise sanitária.

Hoje, obscuros Prefeitos interferem na vida das pessoas de forma absoluta. Tudo em nome do combate à Peste. O exagero é explícito. E o mais grave, com resultados discutíveis.

O mundo chegou a 9 milhões de infectados e 470 mil mortes, pela Pandemia. EUA e Brasil somam 3,3 milhões, 37% dos casos. O Brasil chegou a 1,1 milhão de casos e 51.400 óbitos. E a pequena Província de Sergipe d’ El Rey, alcançou a espantosa marca dos 20 mil casos e 511 óbitos.

Como essa epidemia não tem prazo para terminar, até quando essas sub autoridades se imiscuirão em nossas vidas?

São tanto os desmandos que a gente termina esquecendo coisas importantes. A rede hospitalar precisa de regulação, isto é fato. Precisa de um centro de comando que coordene os encaminhamentos dos pacientes para as unidades de saúde adequadas. Onde existam a vaga e o serviço demandado.

Essa regulação existe para facilitar a vida dos pacientes. Em Sergipe, a burocracia regula visando atender as comodidades dos serviços. A situação dos pacientes não conta.

A exigência das UTIs de só receberem os pacientes com Covid já diagnosticada laboratorialmente, beira ao sadismo. Os resultados dos exames demoram, e a Peste não espera.

Ontem em Itabaiana, o SAMU ficou numa residência, com um idoso grave, na maca, com imensa dificuldade respiratória, por mais de 4 horas, aguardando um comando da regulação. Para onde encaminhar aquele sofredor? A regulação em Sergipe ignora as necessidades dos pacientes.

A Saúde Estadual continua acéfala, sem comando.

Cheguei a elogiar a indicação de uma técnica, mas foi um erro. Não vejo melhoras. Se com o comando de um candidato as coisas não andavam, com um técnico também não. Governador, deixe os profissionais administrarem. A sua interferência está atrapalhando.

Em Aracaju a trapalhada é maior. A gestão da crise sanitária é eleitoreira. Acintosamente política, sem cerimonias. Tudo a luz do dia, sem subterfúgios, sem controles. Saudades dos antigos órgãos de fiscalização. A Peste é inibidora.

As duas principais deficiências de Aracaju são a falta de testagem em volume adequado e a ausência de um programa de rastreamento dos contactantes daqueles que foram infectados. São erros imperdoáveis, que infelizmente continuam.

A Prefeitura de Aracaju joga para a plateia, com ações vistosas, ineficazes e efêmeras, num oba-oba sem fim. Aposta na força do marketing, na desatenção da opinião pública e numa imprensa amiga.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

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