O Cheiro do Mundo (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 25 de Setembro, 2020

A pequena comunidade de Mulungu fechou as portas para o Seu Aristide, depois da morte de sua esposa por Covid-19. O medo do contágio virou repulsa, pavor e discriminação.

Seu Aristide virou um pestilento.

Seu Aristide tem 72 anos, mas parece 90. Ele escapou da Peste, mas ficou sequelado, física e emocionalmente. Sozinho, viúvo, entrevado, sem poder andar direito e rejeitado pela comunidade, com sendo um risco.

Seu Aristide padece de uma saudade amargurada da esposa, que ele nem velou, nem sepultou. Ela foi jogada numa vala comum do cemitério da Prefeitura. Uma vala cavada às pressas. Ela pedia para ser enterrada com o terço, que ela rezava diariamente, e com um véu antigo, que ela carregava da época de moça no Capunga.

Estão me tratando como um leproso bíblico, me disse ele angustiado. Entretanto, doutor, o que me incomoda mais é ter deixado de sentir o cheiro das coisas.

A gente só sabe a importância dos cheiros quando deixa de senti-los.

O olfato é tido como sentido tosco, primitivo, animal. Os civilizados procuram escondê-lo. A etiqueta só permite alguns cheiros especiais. O cheiro do mundo e das pessoas passam desapercebidos.

Seu Aristide é um homem do campo, viveu na roça, Depois da aposentadoria, veio morar no povoado. Esperava um final de vida descansado. Veio a Peste e virou o mundo de cabeça para baixo.

Doutor, eu tenho até vergonha de dizer, mas o que mais aperreia é não sentir o cheiro das coisas. Eu sempre tive uma venta apurada. Parecia um perdigueiro farejador. Adoro a fragrância da terra molhada, do café torrando, do mingau de puba, do manjericão, da cebola ciganinha e de estrume novo.

O mundo inolento ficou sem graça.

O senhor sabe que cada pessoa possui o seu cheiro, próprio, único, ninguém cheira igual. Eu sabia identificá-los. Conhecia o cheiro de minha esposa de longe. Eu não confio em médico que não conheça os seus pacientes pelo cheiro, sem vê-los.

Algumas doenças têm cheiro e podem ser diagnosticadas por este sinal.

Eu sinto falta até da rabugem de general (um vira lata, que ele cria com carinho). Eu só não gostava do cheiro de carocha, aqueles escaravelhos nojentos que se escondem pelos cantos.

Estou desesperado! Sempre soube que se perde o olfato perto da morte. Os moribundos não sentem cheiros, para suportar melhor a decomposição.

Durante os sonhos tenho alucinações, sinto o meu corpo fedendo. Chulé, sovaqueira, fedor de boca e inhaca. Tudo misturado. Fico rançoso, com um odor nauseabundo.

Me acordo para tomar banho, no meio da noite. E nada disso existe. E mesmo que existisse eu não sentiria. Doutor, eu tenho pesadelos fedorentos.

No dizer popular, quem fede são os outros. Nos meus sonhos, sou eu! Sei que o corpo é um espaço naturalmente malcheiroso, mas a minha alucinação exagera. Acordo-me sufocado.

Pensei, para quem encaminhá-lo em busca de tratamento?

Para um Neuro ou para um Otorrino? Ou já existe um especialista em anosmia, um Anosminologista?

Existe fisioterapia para anosmia? Não sei dizer! Em Aracaju existe algum especialista em aromaterapia. Pode ser o caso. Psicoterapia, Florais de Bach, Homeopatia ajudam? Como reduzir o sofrimento do Seu Aristide? Aceito sugestões...

Eu sei que a Peste vai demorar a passar, que ainda vai trazer muitos problemas, mas não imaginava tantos e em tão pouco tempo.

Quando os boletins epidemiológicos oficiais informam o número de curados, penso comigo mesmo, que Deus os proteja.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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